Capítulo 34 — A alma partida
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Kael’Thar não usava mais máscara. Seu rosto era o de um guerreiro antigo, marcado por centenas de linhas luminosas que haviam escurecido. A armadura negra parecia crescer de dentro para fora. Seus olhos não eram completamente vermelhos; havia neles um brilho dourado, quase humano. Thaurion segurava o pulso dele.
— Você ainda está aí.
— Eu nunca saí.
— Então solte-me.
— Você sempre foi melhor em fugir.
Aurelion e os outros chegaram à sala. Kael’Thar lançou Thaurion para o chão. Aurelion avançou.
— Kael’Thar.
O antigo guardião olhou para ele.
— Você carrega o eco de um juramento que não era seu.
Aurelion ficou tenso.
— E você carrega o peso de todos que não conseguiu salvar.
— Posso retirar esse peso.
— Não quero.
Kael’Thar estendeu a mão. A sala se encheu de imagens. Emberion no altar de Pyralis. A cidade sem nomes. Arcthar desaparecendo na neve. O clã de Abyssal fechando os portões. O templo de Luminor em chamas.
— Entreguem as memórias — disse Kael’Thar.
— Eu transformarei a dor em silêncio.
Glaciron ergueu a lança.
— O silêncio não cura.
— Cura o suficiente para que ninguém grite.
Kael’Thar fechou os dedos. Os corpos de luz se contorceram. Emberion apareceu no centro da sala, dividido ao meio. Ash'kar de um lado, a chama dourada do outro. Entre eles havia um fio tão fino que parecia prestes a partir.
— Ele é o oitavo caminho — disse Kael’Thar.
— A vida depois do fim.
A prova de que toda chama precisa queimar alguém. Thaurion levantou-se.
— Ele é mais do que aquilo que aconteceu com ele.
— Então prove.
As sombras do Labirinto atacaram. O combate aconteceu em todos os níveis da sala. Zephirion e Abyssal criaram uma espiral de vento e água para impedir que os ecos alcançassem Emberion. Glaciron e Luminor seguraram as criaturas que vinham das portas. Aurelion enfrentou Kael’Thar diretamente. As espadas colidiram. Kael’Thar era mais forte. Cada golpe parecia trazer a força de uma era. Aurelion foi lançado contra uma parede invisível.
— Você protege todos porque não suportou proteger um só
— disse Kael’Thar.
Aurelion levantou-se.
— Você domina todos porque não suportou perder um só.
O golpe de Kael’Thar arrancou mais um pedaço do escudo quebrado. Aurelion caiu. Kael’Thar ergueu a mão para o ataque final. Uma linha de vento cortou seus dedos. Zephirion apareceu ao lado de Aurelion.
— Você está atrasado — disse o senhor dos ventos.
— Estou percebendo um padrão.
Abyssal lançou uma maré contra Kael’Thar. Glaciron congelou o chão. Luminor cortou a sombra. O antigo guardião recuou. Thaurion chegou até Emberion.
— Você precisa escolher.
— Qual de mim?
— Nenhum.
Escolha o que fará com os dois. Ash'kar virou o rosto.
— A raiva me protegeu.
A chama dourada respondeu:
— A esperança me manteve.
— A esperança não veio quando eu chamei.
— Mas você continuou chamando.
Emberion colocou uma mão em cada metade de si. Kael’Thar gritou e lançou toda a sala contra ele. Os Guardiões formaram um círculo. Aurelion abriu o escudo quebrado. Luminor cruzou as lâminas. Glaciron ergueu uma muralha. Abyssal recolheu a água espalhada no piso e a ergueu em uma proteção curva. As guelras ardiam; já não havia reserva suficiente para outro ataque. Zephirion chamou os ventos. Thaurion colocou a própria cicatriz no centro. As sete marcas se uniram. Emberion absorveu a luz. A fênix não voltou a ser o mesmo. A armadura negra permaneceu em um lado do corpo.
A chama dourada ficou no outro. Entre ambos, nasceu uma linha azul, fina e estável. Kael’Thar foi atingido pelo próprio poder. Ele caiu de joelhos.
— Vocês não entendem — disse.
— O equilíbrio vai quebrar vocês de novo.
— Talvez — respondeu Aurelion.
— Mas será nossa escolha.
Kael’Thar abriu uma fenda atrás de si.
— Então venham até a torre.
Ele desapareceu. O Labirinto começou a ruir. Emberion caiu nos braços de Thaurion.
— Eu sou Emberion?
Thaurion segurou seu rosto.
— É. Nós o reconhecemos.
A fênix olhou para a própria mão escurecida.
— E isso?
— Vai precisar de tempo. Não temos de entender tudo agora.
Emberion fechou os olhos. Por enquanto, conseguiu apenas encostar a testa na mão de Thaurion. O Labirinto se abriu em um único corredor. Ao fim dele havia uma escadaria de cristal negro, subindo para um céu sem estrelas. A Torre Obsidiana esperava.