Capítulo 19 — O coração verde
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O coração de Mirakel era uma árvore. Seu tronco atravessava o chão e o céu. Raízes suspensas flutuavam ao redor como rios congelados. Em uma cavidade no centro, o Cristal da Vida pulsava com uma luz verde-dourada. Os Guardiões aproximaram-se juntos, mas a floresta não os deixava esquecer o que haviam visto. Glaciron carregava a chama azul de Arcthar na ponta da lança. Abyssal tinha o redemoinho escuro sob a pele. Luminor guardava a lâmina rachada. Zephirion segurava a folha do símbolo desconhecido. Aurelion trazia a cicatriz de Osai. Thaurion escondia as lágrimas do futuro.
Emberion ainda não havia voltado. Varnak abriu a cavidade do tronco.
— O Cristal da Vida não pertence a quem deseja viver para sempre.
— O que ele exige? — perguntou Aurelion.
— Que aceitem a mudança.
Uma raiz fina saiu da árvore e tocou o peito de cada Guardião. O contato foi suave, mas ninguém conseguiu se mover. Thaurion sentiu a própria vida se espalhar em fios. Viu todas as escolhas que ainda poderia fazer. Uma delas terminava com ele sozinho. Outra terminava com todos os sete mortos. Uma terceira mostrava a criança sem nome diante da árvore. Ele não tentou escolher. Aurelion ouviu o eco do irmão. Luminor sentiu os mortos da ordem. Glaciron sentiu a neve derretendo. Abyssal ouviu o clã chamá-lo. Zephirion ouviu a risada da mulher desconhecida.
E Emberion surgiu no alto da árvore, coberto de cinzas.
— Você demorou — disse Zephirion.
— A floresta me fez andar.
— Ela fez isso conosco também.
Emberion olhou para as próprias mãos, ainda na forma de guerreiro alado.
— Havia uma árvore ardendo no meio de um campo. Não podia apagá-la sem apagar meu fogo junto.
Fiquei tentando decidir o que fazer, até enxergar uma raiz correndo para fora das chamas.
— Você a salvou? — perguntou Glaciron.
— Abri um sulco para ela.
A árvore queimou. Ninguém disse que ele podia ter feito mais. Emberion pareceu aliviado por isso. Emberion tocou uma raiz. A luz verde se abriu para ele.
— A floresta não quer só um guardião.
Quer uma decisão de todos. Varnak ergueu o rosto.
— Então decidam.
Os sete colocaram as mãos sobre a árvore. A luz cresceu. Uma voz percorreu suas mentes: Vida não é conservar a forma. É permitir que algo continue mesmo depois de mudar. O Cristal da Vida saiu do tronco e flutuou sobre eles. Nesse instante, a lasca negra de Nirvok explodiu sob a terra. O veneno atravessou as raízes. Espíritos luminosos caíram do céu, transformados em criaturas de olhos vermelhos. Varnak rugiu e golpeou o chão, mas uma corrente negra subiu por seu braço.
— A corrupção entrou no coração!
Nirvok apareceu na borda da clareira.
— Eu avisei.
Toda floresta tem uma parte que prefere apodrecer. As criaturas atacaram. Aurelion protegeu o Cristal da Vida com o escudo. Luminor e Zephirion abriram um corredor entre os espíritos. Glaciron congelou as raízes negras, mas elas quebraram o gelo por dentro. Abyssal invocou água subterrânea, que subiu em colunas e derrubou cinco criaturas. Emberion voou até Varnak. O braço do ente estava coberto de veios escuros.
— Corte-o — disse Varnak.
— O quê?
— A parte corrompida.
Emberion levantou a mão em chamas. Varnak segurou seu pulso.
— Não hesite por minha causa.
Emberion queimou a corrupção. A luz atravessou a madeira, arrancando um grito que fez a floresta inteira tremer. O braço de Varnak caiu, transformando-se em galhos mortos. O ente permaneceu de pé.
— Uma raiz a menos.
— Você está ferido.
— Toda árvore que cresce perde um galho.
Nirvok lançou a foice contra o cristal. Zephirion desviou a lâmina com um tornado, mas o golpe atingiu o tronco. Uma rachadura negra abriu-se de alto a baixo. Aurelion atacou. O cavaleiro e Nirvok colidiram sobre as raízes suspensas. A foice cortava o ar sem som. Aurelion bloqueava, mas a mancha em seu peito respondia ao inimigo.
— Você sente, não sente? — provocou Nirvok.
— Todos os que perderá estão dentro dessa armadura.
Aurelion aparou outro golpe.
— E mesmo assim continuo aqui.
Ele acertou Nirvok no rosto. A máscara do servo partiu-se. Por trás dela havia olhos cansados, quase humanos.
— Você pode voltar — disse Aurelion.
Nirvok riu.
— Voltar para onde?
Uma raiz negra atravessou as costas de Nirvok e o puxou para dentro da floresta. O servo escapou por uma fenda, deixando a foice cravada no chão. A arma se desfez quando a fenda se fechou; restou a emenda vermelha da haste, fria sobre o musgo. Thaurion agarrou o Cristal da Vida. O continente inteiro respirou. Mas Mirakel começou a morrer. Varnak caiu de joelhos. Pequenos espíritos apagavam-se ao redor.
— Levem o cristal — disse ele.
— A floresta vai segurar a doença enquanto puder.
— Vamos voltar — prometeu Zephirion.
— Toda promessa é uma raiz.
Cuide para não plantá-la em solo morto. As árvores abriram uma passagem para o sul. Atrás dos Guardiões, Mirakel fechou suas copas como quem fecha os olhos. No horizonte, o Deserto Escarlate ardia sob um sol sem misericórdia. E, em algum lugar sob a areia, uma chama antiga acordava com fome.