Capítulo 26 — Cidades sem sombra
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A notícia da cidade vazia chegou antes dos Guardiões. Mensageiros correram pelas estradas. Sinos tocaram nas aldeias. Famílias deixaram suas casas e se dirigiram ao Templo de Gaia, carregando o que podiam. Ninguém sabia explicar o que acontecera, apenas que o mundo estava esquecendo as próprias pessoas. Aurelion queria permanecer na região e ajudar a reconstruir. Thaurion insistiu que o próximo ataque já estava a caminho.
— Se formos ao Vale, abandonaremos os que estão fugindo
— disse Luminor.
— Se não formos ao Vale, não haverá para onde fugir respondeu Thaurion.
O silêncio após a frase foi pesado. Emberion, ainda reduzido à pequena fênix de cristal, voou até o mapa. Uma chama azul surgiu sobre o norte. Zephirion inclinou a cabeça.
— Ele está indicando um caminho.
— Ou está queimando o mapa — disse Abyssal.
A chama não queimou o papel. Desenhou uma rota que passava por quatro vilas e uma cidade fortificada. Aurelion tomou a decisão.
— Vamos dividir o grupo.
Thaurion ergueu o rosto.
— Dividir é exatamente o que o inimigo quer.
— E ficar juntos enquanto pessoas são consumidas também é uma escolha.
Luminor assentiu.
— Eu vou para Vila Topázio.
— Eu vou com você — disse Glaciron.
Zephirion abriu as asas.
— Abyssal e eu levamos os refugiados para o templo.
Abyssal apontou para Emberion.
— A pequena chama fica com quem?
Aurelion estendeu o braço. A fênix pousou nele.
— Comigo.
Thaurion segurou o mapa.
— E eu sigo para o Vale.
Todos olharam para ele.
— Sozinho? — perguntou Luminor.
— Não por muito tempo.
Antes que pudessem discutir, o céu ficou preto. Não era uma nuvem. Era a ausência de luz sobre uma região inteira. De dentro da mancha, milhares de pontos vermelhos desceram. Sombras Fraturadas. O ataque começou antes da divisão. Aurelion ergueu o escudo. A primeira onda bateu contra ele como uma maré de corpos sem rosto. Luminor atravessou a massa com duas lâminas. Glaciron criou uma barreira de gelo, mas as sombras penetraram pelas rachaduras. Zephirion lançou os refugiados em correntes de vento, puxando-os para trás. Abyssal abriu o leito de um rio seco e fez a água subir de uma nascente subterrânea.
As pessoas atravessaram sobre pontes líquidas enquanto criaturas negras tentavam alcançar suas pernas. Uma sombra agarrou uma menina. Glaciron chegou tarde demais para golpeá-la sem ferir a criança. A criatura assumiu a forma de Arcthar.
— Você vai congelar todos outra vez — disse o rosto do mestre.
Glaciron não hesitou. Congelou o chão sob a sombra, não o corpo da menina. A criatura perdeu equilíbrio. A criança caiu nos braços de Aurelion, e Luminor cortou o espectro sem tocar nela.
— Você aprendeu — disse Luminor.
— Aprendi que ainda posso errar.
— Isso é menos reconfortante.
— Mas é mais verdadeiro.
No céu, Zephirion tentava manter dezenas de carroças suspensas. O vento estava pesado, cheio de vozes. A cada minuto, uma carroça descia. Abyssal juntou água em torno das rodas e criou uma corrente que as levava pelo ar.
— Você não consegue segurar todas — gritou.
— Eu sei.
— Então escolha.
Zephirion olhou para baixo. Havia uma criança em cada carroça. Algumas pessoas acenavam. Outras simplesmente seguravam os olhos fechados. Ele dividiu o vento em correntes menores. A carroça da extremidade oscilou, e uma das rodas começou a atravessar a borda de sustentação.
— A pequena, à esquerda! — gritou para Abyssal.
— Vou baixar primeiro.
Três batidas! O tritão ergueu o braço livre. Zephirion contou e soltou a carga em direção à coluna de água. Abyssal a recebeu, amortecendo a queda até as rodas encontrarem a estrada.
— Mais uma! — chamou.
Fizeram a segunda transferência sem a contagem. Na terceira, Zephirion precisou apoiar o peito sobre uma viga suspensa para recuperar o fôlego. Abyssal manteve a água erguida até ele conseguir olhar de novo. Só depois da última carroça, os dois baixaram os braços. Quando a última sombra foi repelida, uma parte da muralha da cidade havia caído. Aurelion encontrou um salão cheio de pessoas paralisadas, com olhos abertos e memórias ausentes. Uma mulher reconheceu a voz dele, mas não o rosto.
— Você veio nos salvar?
— Vim.
— Então diga meu nome.
Aurelion ficou imóvel. Ela não lembrava. O cavaleiro sentou-se diante dela.
— Eu não sei seu nome. Mas posso ficar até que você escolha um novo.
A mulher chorou sem saber por quê. No centro da cidade, Luminor encontrou uma torre coberta por símbolos de oito linhas. Dentro dela, a sombra que caíra do céu ainda pulsava. Thaurion chegou pelo mesmo corredor.
— Não toque.
— Eu não ia.
— Você estava com a mão estendida.
— Estava calculando.
— O Vazio gosta de pessoas que chamam curiosidade de cálculo.
Luminor recuou. A sombra formou uma janela. Do outro lado, o Vale do Esquecimento apareceu. No centro havia um altar negro. Sobre ele, um corpo feito de fogo púrpura. Emberion. A pequena fênix no braço de Aurelion gritou. O corpo do altar abriu os olhos. Não eram os olhos de Emberion. Kael’Thar surgiu atrás dele, como uma silhueta de armadura quebrada.
— Tragam a chama — disse a voz.
— Ou ela virá buscar vocês.
A janela fechou. Thaurion levou a mão ao rosto.
— Ainda há tempo.
Aurelion segurou a pequena fênix.
— Então vamos usá-lo.
Nas torres, nenhuma sombra permanecia. Mas as pessoas que haviam recuperado parte das memórias olhavam para os Guardiões com um medo novo. Não era medo de morrer. Era medo de continuar e descobrir o que tinha sido esquecido.