Capítulo 36 — A noite sem estrelas
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A Torre Obsidiana flutuava acima de um reino sem horizonte, presa ao mundo por correntes de cristal negro. Sob a ponte, a névoa cobria as ruas de uma cidade que não existia em nenhum mapa. Aurelion parou antes do primeiro arco.
— Ninguém atravessa até sabermos onde o chão termina.
Luminor lançou um fio de luz entre os pilares. A linha revelou três plataformas móveis, separadas por lâminas verticais de sombra. A ponte parecia inteira porque as imagens das plataformas continuavam refletidas nos vãos. Zephirion se agachou e soprou sobre a poeira. Os grãos descreveram uma curva e desapareceram no segundo intervalo.
— Ela troca de posição a cada corrente de ar.
— Então não crie outra — disse Abyssal.
Glaciron ajoelhou-se junto à borda. O gelo alcançou a primeira plataforma, prendeu-se à pedra e começou a crescer para a seguinte. No momento do contato, a torre puxou. A fissura correu pelo antebraço recém-recomposto. Emberion segurou o ombro dele antes que fosse arrastado.
— Solte.
Glaciron quebrou a extensão de gelo. O fragmento desapareceu entre as lâminas negras; o som de sua queda só chegou muito depois. Thaurion abriu a caixa da Tempestade. A metade marcada respondeu imediatamente, virando-se para a torre.
— Ela usa a ligação entre os fragmentos.
Pode trazer uma passagem até nós, mas também pode nos levar para dentro. Aurelion observou a ponte. Precisavam entrar. Pelo vão sob o arco, já enxergavam os veios negros que se estendiam para o continente.
— Quanto tempo você consegue manter a direção?
O minotauro examinou a mão. Os dedos estavam dormentes desde o Vale.
— Uma travessia. Se ninguém mudar de caminho.
Luminor prendeu uma tira de tecido na empunhadura da lâmina nova e entregou a outra ponta a Aurelion. Fizeram o mesmo com as demais armas. A pequena corrente de nós atravessou os sete.
— Se perder a visão, segue o tecido — disse.
Aurelion testou o primeiro nó com cuidado. Estava firme. Thaurion desenhou um selo sobre a caixa. A plataforma central voltou ao lugar, e a ponte assumiu um contorno quase sólido. Atravessaram em fila. Na metade do percurso, uma fileira de soldados saiu dos pilares. Tinham armaduras brancas, sem rostos sob os elmos. Aurelion reconheceu a formação antes de entender o perigo: a primeira linha obrigava o inimigo a erguer o escudo; a segunda golpeava por baixo.
— Abaixem!
Recebeu duas lâminas sobre a proteção estreita. A terceira passou junto à atadura de seu braço. Luminor cortou o joelho do soldado mais próximo, e Glaciron congelou a junta exposta. A criatura caiu entre as próprias fileiras. O impacto desfez o selo da plataforma. O chão inclinou-se. Zephirion sentiu o tecido esticar contra o pulso. Não tentou erguer todos.
— Abyssal, a base!
Emberion, segura Thaurion! O tritão lançou a água do cantil sobre as ranhuras da ponte. Glaciron congelou a película. A superfície áspera interrompeu a queda de Aurelion por tempo suficiente para que ele prendesse a espada entre duas pedras. Emberion recolheu o minotauro com a asa dourada. A violeta tocou o pilar e ardeu. A torre abriu uma passagem diante dela. Uma voz veio do vão:
— Aqui você pode deixar o que lhe fizeram.
Emberion olhou para dentro. Viu uma sala vazia, sem cinza, sem corpo ferido, sem ninguém que lembrasse do Vale. Bastava atravessar. O tecido puxou seu braço. Thaurion perdera a consciência. Seu peso afundava a asa dourada em direção ao vão. Emberion tornou a prender os pés na pedra.
— Glaciron, eu preciso de apoio!
O guerreiro de gelo estendeu uma ponta da lança. Emberion a alcançou. A abertura na parede se fechou antes que ele conseguisse olhar para trás. À frente, Luminor percebeu um reflexo escuro em cada pescoço dos soldados. As criaturas se moviam quando o reflexo recebia luz da torre. Ele cobriu a lâmina antiga com o próprio manto e a fincou no encaixe do arco, interrompendo o feixe. Três soldados pararam. O quarto terminou o golpe. A lâmina atingiu Luminor acima do joelho. Ele caiu sobre a perna ferida e segurou a arma presa no arco.
Se a soltasse, o feixe voltaria.
— A passagem! — gritou.
Aurelion chegou ao lado dele. Empurrou os soldados imóveis para dentro do vão. Zephirion guiou o resto do grupo entre os elmos, mantendo uma corrente curta ao nível dos pés. A última plataforma começou a se afastar. Abyssal tomou Thaurion de Emberion e o arrastou pelo limiar. Glaciron passou em seguida. Aurelion voltou um passo para ajudar Luminor.
— Puxa a lâmina!
Luminor tentou. A guarda prendeu-se na pedra. O cavaleiro apoiou o escudo sob a empunhadura e fez alavanca. A arma saiu no instante em que a ponte se separou do arco. Uma borda ficou lascada; ainda podia cortar. Os dois atravessaram juntos, puxados pelo tecido que unia o grupo. A porta se fechou atrás deles. Durante um momento, só se ouviu a respiração de Abyssal. O tritão estava ajoelhado, com o cantil vazio entre as mãos. Luminor pressionava a coxa. Aurelion esperou que o braço parasse de tremer antes de desatar o primeiro nó.
Thaurion abriu os olhos.
— Todos?
Zephirion contou em voz baixa. Tocou cada ombro à medida que dizia o número.
— Sete.
Acima deles, o teto acendeu. Milhares de pontos de luz revelaram degraus, ruas e janelas suspensas no interior da torre. Entre as janelas, sombras humanas permaneciam imóveis. Thaurion tentou se sentar.
— Não são soldados.
Luminor ergueu a lâmina curta. A luz alcançou uma das figuras. Uma mulher segurava um copo. A água jamais chegava à boca. Tinham encontrado o que a torre roubara.