Capítulo 38 — O primeiro guardião
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Kael’Thar cresceu até tocar o teto do reino sombrio. O corpo era feito de placas de cristal negro, mas dentro das juntas havia rios de luz vermelha. Quatro braços surgiram de suas costas. Nas seis mãos surgiram armas criadas de medo: uma espada sem lâmina, uma corrente, um espelho, uma coroa partida, um dardo escuro e uma lâmina de cinzas. O rosto permaneceu humano. Sob a sombra do peito, Thaurion reconheceu a pedra dourada que julgara destruída.
— A primeira ligação — disse o minotauro.
Luminor olhou para ele. Thaurion não desviou desta vez.
— Nos registros que sobreviveram àquela era, Kael’Thar foi o primeiro Guardião de Cristal.
O coração que ele carregava respondia a todos os elementos. Recolhemos os fragmentos depois da queda, mas ele conservou o lugar onde se ligavam. A coroa girou. Cada uma de suas oito pontas produziu o reflexo de um cristal distante. As duas pedras sob a proteção de Thaurion tentaram saltar da caixa.
— Ele não tem os sete cristais aqui — disse o minotauro.
Tem uma passagem para cada um. É isso que precisamos fechar. Kael’Thar estendeu os braços.
— Vocês me chamam de monstro porque precisam que eu seja simples.
Thaurion apertou o cajado.
— Você se tornou o que escolheu.
— Eu escolhi impedir que o mundo sofresse.
— E criou um mundo sem escolha.
Kael’Thar atacou. A primeira espada caiu sobre Aurelion. O cavaleiro bloqueou com o escudo, mas foi arrastado pelo chão. Luminor atingiu o braço do titã e abriu uma linha de luz. A ferida fechou com fragmentos de memórias. Zephirion e Abyssal atacaram juntos. Um tornado de água subiu pelo corpo de Kael’Thar. O titã abriu o espelho e devolveu o ataque como uma chuva de rostos. Glaciron congelou os rostos antes que atingissem os outros. Emberion lançou fogo azul no núcleo. Kael’Thar girou a corrente e agarrou a asa violeta da fênix.
— Eu conheço essa sombra.
— Então deveria saber que ela não obedece a você.
Emberion puxou a corrente para si, aproximando-se do titã. A asa dourada tocou o peito negro. Uma memória entrou no corpo de Kael’Thar. Era o acampamento junto à planície, antes da ruptura. Kael’Thar e Thaurion dividiam uma tigela de sopa. O mais jovem derrubara o caderno no caldo, e o homem da armadura clara ria enquanto tentava salvar as páginas. Emberion recebera aquela memória quando entrara em contato com Thaurion no Vale. Kael’Thar gritou.
— Não me mostre isso.
— Você não quer ser esquecido.
— Eu quero que pare de doer.
— Não é a mesma coisa.
O titã arremessou Emberion contra o núcleo. A fênix atravessou uma parede e caiu no vazio. Aurelion correu para ele, mas uma das mãos de Kael’Thar o agarrou.
— Você se parece com ele.
Aurelion encarou o rosto do titã.
— Com quem?
— Com qualquer pessoa que acredita que ainda pode voltar.
A mão apertou. Aurelion viu o irmão no reflexo do espelho. O guerreiro de relâmpagos estava mais velho, coberto por sombra, mas ainda erguia a mão.
— Se eu cair, você me levanta.
Aurelion fechou os olhos.
— Eu lembro.
Ele abriu o escudo dentro da mão do titã. A luz de Gaia explodiu. Kael’Thar soltou-o. Thaurion subiu em uma coluna quebrada e lançou sete selos. Seis selos prenderam os braços do titã. O sétimo se fechou sobre a ligação dourada no peito.
— Aurelion, o coração!
— Está protegido.
— Não o seu.
O dele. O cavaleiro entendeu. A coroa de oito pontas girava sobre o peito de Kael’Thar. No centro, havia uma pedra dourada quase apagada. Kael’Thar puxou as correntes de selo.
— Você não pode devolver o que foi dividido.
— Não queremos devolver.
Luminor cortou a corrente que o titã lançara sobre a coluna.
— Queremos impedir que você use os pedaços.
Glaciron congelou outra. Abyssal recolheu o fluxo que escorria dos veios da torre e o fez subir pelos tornozelos do titã. Zephirion levou os braços restantes ao alto. Emberion voltou do vazio, uma asa em chamas azuis. Kael’Thar rugiu e partiu os selos. O golpe seguinte atingiu Thaurion. O minotauro caiu contra o núcleo da torre. Sua cicatriz se abriu, e a mesma escuridão da planície antiga entrou em seu corpo. Kael’Thar aproximou-se.
— Você abriu a porta.
Abra-a outra vez. Thaurion segurou o cajado.
— Não.
— Você não pode vencer sem mim.
— Não quero vencer.
Thaurion cravou o cajado no núcleo.
— Quero que todos tenham a chance de escolher o que fazer depois da dor.
A torre tremeu. Os cristais menores começaram a quebrar. Memórias roubadas foram libertadas em ondas. A cidade sem sombras apareceu no ar. Mirakel surgiu como uma floresta de luz. Pyralis reacendeu. O Mar de Nym subiu pelo vazio. Kael’Thar foi atingido pelas lembranças que tentara prender. Ele gritou ao ouvir milhares de nomes. Entre eles, uma voz pequena chamou:
— Nirvok.
Kael’Thar olhou para a porta inferior. Por um instante, o titã perdeu a forma. Emberion voou até o peito dele.
— Você ainda pode parar.
— Não há parada depois de tanto tempo.
— Há escolha.
Kael’Thar ergueu o braço. O reino inteiro começou a desabar.