Capítulo 9 — O primeiro servo
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Os Guardiões estavam a meio caminho da saída quando a foice cortou o arco de cristal. O golpe não produziu som. Produziu ausência. Onde a lâmina passou, a pedra deixou de existir, e um pedaço da montanha abriu-se para o vazio. Uma figura encapuzada pousou sobre a rocha. Seu corpo era coberto por placas de cristal negro, mas as juntas brilhavam em vermelho. A foice, longa e curva, parecia feita de um pedaço da própria noite.
— O vulcão pertence ao Vazio — disse ele.
Aurelion colocou-se diante dos demais.
— Então o Vazio aprendeu a roubar montanhas.
— Aprendeu a esperar.
O encapuzado ergueu a máscara. O rosto era jovem demais para a voz que carregava, com marcas escuras subindo do pescoço até a têmpora.
— Meu nome é Nirvok. Eu fui o primeiro a ouvir o chamado.
Thaurion apertou o Cristal da Tempestade.
— Você foi um guardião?
— Fui um sentinela.
Protegia as portas que vocês esqueceram.
— Não há portas aqui.
Nirvok sorriu.
— É isso que torna vocês tão fáceis de abrir.
Nirvok baixou a máscara e avançou. Aurelion bloqueou a foice com a espada. O choque fez a encosta tremer. Nirvok era mais rápido do que parecia; girou a arma por baixo do escudo e acertou a lateral da armadura do cavaleiro. Luminor entrou no duelo. Suas lâminas atacaram de lados opostos, mas Nirvok virou o corpo no instante exato e usou a foice para prendê-las.
— Duas lâminas — murmurou.
— Uma culpa.
Luminor puxou as armas.
— Você fala demais.
Uma rajada de vento lançou Nirvok contra a parede. Zephirion pousou ao lado de Luminor.
— Ele também luta demais.
Nirvok fincou a foice na rocha. A sombra ao redor dele se espalhou em círculos. De cada círculo saiu uma cópia sua. Glaciron atacou uma delas e atravessou fumaça. A cópia surgiu atrás e golpeou seu joelho. Emberion queimou duas outras, mas cada uma deixou uma mancha escura sobre o chão.
— Não ataquem as cópias! — gritou Thaurion.
— Elas são reflexos da foice!
— E como atacamos a foice? — perguntou Abyssal.
— Quebrando o que ela reflete!
Ninguém entendeu. Nirvok veio na direção de Abyssal. A lâmina da foice transformou-se em uma onda negra que atingiu o tritão no peito. Abyssal viu o salão de seu clã. Viu os anciãos apontando para a marca em sua mão. Viu a si mesmo sendo expulso pela correnteza.
— Monstro — diziam as vozes.
Ele caiu de joelhos. Nirvok aproximou a foice de seu pescoço.
— A pior prisão é acreditar no nome que deram a você.
Abyssal abriu os olhos. Em vez de olhar para as imagens, encarou Nirvok.
— Você ainda usa o nome que deram a você.
O servo hesitou. Abyssal golpeou o chão com o tridente. Uma coluna de água explodiu sob Nirvok, quebrando a formação das sombras. Do outro lado, Glaciron e Emberion se uniram. O gelo cobriu a foice, e o fogo estalou por dentro do cristal. Nirvok puxou a arma, mas Aurelion acertou seu ombro. A máscara caiu. A gola da armadura se abriu com o golpe. Na base do pescoço havia uma cicatriz em forma de oito linhas. Thaurion reconheceu o símbolo.
— Você foi tocado pelo oitavo cristal.
Nirvok recuperou a foice.
— Fui escolhido.
— Ninguém é escolhido pelo Vazio — respondeu Thaurion.
Apenas convencido. O rosto de Nirvok se contorceu. Ele lançou a foice contra o minotauro. Aurelion se colocou no caminho. A lâmina atravessou seu escudo e parou a poucos centímetros do peito. O golpe arrancou uma lasca da metade escura da Tempestade, ainda presa ao metal. Nirvok a recolheu com a mão livre. A energia negra penetrou a armadura de Aurelion, procurando o cristal em seu coração. Aurelion gritou. Emberion soltou uma explosão de fogo. Zephirion puxou a foice com o vento. Luminor cortou o cabo. Abyssal abriu uma corrente de água sob Nirvok.
Glaciron congelou seus pés. Por um instante, o servo ficou preso. Thaurion avançou e encostou a cicatriz da palma na marca de Nirvok.
— Lembre-se de quem você era.
Nirvok viu uma criança diante de uma porta, segurando uma lanterna. Viu a mãe dizendo para não ouvir o que viesse do outro lado. Viu a própria mão abrindo a fechadura. O choque quebrou o gelo. Nirvok rasgou uma fenda atrás de si e recuou. Antes de atravessar, retirou da dobra da armadura a lasca que roubara do escudo e a lançou para o alto. A lasca desapareceu nas nuvens.
— Mirakel vai abrir as raízes para nós — disse.
— E quando a floresta gritar, vocês vão entender que a natureza também pode ter fome.
Ele sumiu. O vulcão rugiu. Aurelion caiu de joelhos. A mancha negra avançava por seu peito. Thaurion segurou a espada.
— Não olhe para a marca.
— Está dentro de mim.
— Ainda não.
Emberion encostou dois dedos em sua armadura. Uma chama pequena queimou a corrupção, mas Aurelion gritou mais alto. Quando a fumaça se desfez, restou uma cicatriz escura sobre o cristal do cavaleiro. Quando alcançaram a base da encosta, Glaciron moldou uma caixa com duas cavidades. Thaurion colocou a metade azul em uma delas. Aurelion desprendeu a outra do escudo com a ajuda de Luminor. Por baixo do manto chamuscado, o cristal ainda procurava a metade perdida.
— Separe as cavidades — pediu Thaurion.
— Se o fio escurecer, me acorde.
O primeiro cristal estava sob proteção. A cicatriz no peito de Aurelion, porém, pulsava no mesmo ritmo da pedra.