Capítulo 2 — O minotauro e a cicatriz
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Thaurion sabia que não deveria sair da caverna. Sabia também que, se permanecesse ali, o passado encontraria uma forma de sair por ele. Vestiu o manto de viagem, prendeu o cajado nas costas e caminhou entre os pilares. Os cristais o reconheciam. Alguns se afastavam, abrindo passagem; outros tremiam quando ele passava, como crianças que se lembrassem de uma história assustadora. No centro da caverna havia um pilar que Thaurion mantinha coberto por correntes. Ele não olhou diretamente para a pedra escura dentro dele. Era a lasca de rocha que retirara da borda da fenda, presa ali como uma amostra selada.
Não era o oitavo cristal. Bastava, porém, para guardar o eco de quem o tocara.
— Não vou abrir você — disse.
O pilar respondeu com a voz do antigo companheiro.
— Você já abriu.
Thaurion parou. A cicatriz em sua palma, feita no dia da antiga fenda, voltou a arder. Por um momento, a caverna desapareceu e ele viu o mundo de antes: os cristais brancos, a luz primitiva, o companheiro ajoelhado diante do abismo. Viu também aquilo que nunca contara aos outros. Fora Thaurion quem propusera o estudo da fenda. A ideia de que uma força podia ser compreendida lhe parecera, então, motivo suficiente para se aproximar dela.
— Se não entendermos o que existe lá, alguém vai tocá-la sem preparo — dissera o minotauro, séculos atrás.
O outro sorrira.
— Então vamos entender juntos.
Thaurion lembrava-se do som da armadura se partindo. Lembrava-se de ter fugido com sete fragmentos de luz nas mãos enquanto o amigo gritava seu nome do outro lado da escuridão. A caverna voltou. O pilar estava rachado. Thaurion golpeou o chão com o cajado. Selos azuis nasceram ao redor da pedra.
— Você não vai usar os Guardiões para terminar o que começou.
Nenhuma voz respondeu. Isso foi pior. O minotauro partiu para Gaia antes do amanhecer. Na estrada, o mundo parecia normal para quem não sabia olhar. Fazendeiros conduziam carroças. Crianças corriam atrás de vaga-lumes. Pássaros disputavam um galho. Mas as sombras estavam todas apontadas para o leste, na direção do sol nascente. Thaurion parou junto a uma ponte e tocou a água. Sete rostos apareceram na superfície. Zephirion vinha das nuvens, rápido demais para o próprio juízo. O vento ao seu redor havia mudado; não era mais uma extensão de seu corpo, mas uma presença que o empurrava.
Glaciron descia das montanhas, levando no peito uma marca de frio profundo. Abyssal subia do mar, seguido por uma corrente de água que não obedecia à gravidade. Emberion deixava um rastro de brasas sobre o horizonte. Luminor atravessava o céu em dois riscos dourados. E Aurelion caminhava sozinho pela estrada, como se a própria terra soubesse abrir espaço para ele. Thaurion retirou a mão da água.
— Sete chaves — disse.
— E uma porta que aprendeu a ter fome. Quando chegou ao templo, Gaia estava em silêncio.
As torres centrais ainda eram belas, mas as pedras haviam perdido o brilho. Rachaduras subiam pelas paredes em desenhos que lembravam raízes queimadas. No alto, o Cristal Primordial pairava sobre o altar, envolto em um halo dourado que piscava como um coração cansado. Thaurion ajoelhou-se.
— Eu devia ter protegido vocês do passado.
Uma sombra cruzou o halo.
— Não há proteção contra aquilo que se carrega dentro.
Thaurion ergueu o rosto. No reflexo do cristal, não viu seu próprio focinho. Viu uma figura alta, coberta por placas negras, com uma mão estendida para os sete caminhos. O minotauro fechou os olhos.
— Ainda não.
O cristal pulsou. Desta vez, os sete responderam.