Capítulo 17 — A tempestade que ri
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Zephirion acordou no céu. Não havia chão. Apenas nuvens e espelhos, milhares deles, flutuando em todas as direções. Cada reflexo mostrava uma versão diferente do senhor dos ventos. Em um, ele era um rei alado. Em outro, um covarde escondido em uma torre. Em outro, um velho sentado sozinho diante de um céu sem movimento. Uma mulher apareceu em um dos espelhos. Zephirion não conhecia o rosto, mas reconheceu a sensação. Era como ouvir uma música pela primeira vez e lembrar que já sentira falta dela.
— Você chegou tarde — disse a mulher.
— Estou começando a perceber que isso é uma frase comum neste continente.
Ela sorriu.
— Você sempre transforma medo em piada?
— Só quando o medo merece.
O espelho se partiu. Zephirion despencou. Criou uma corrente de ar, mas ela virou contra ele. Outro reflexo passou voando.
— Você foge de tudo que pode ficar.
— Eu fico bastante.
— Fica até ser necessário sentir.
Os reflexos começaram a persegui-lo. Cada um controlava um tipo de vento. Um trazia granizo, outro areia, outro silêncio. Zephirion desviava, ria, provocava, mas os ataques se multiplicavam. Uma rajada acertou sua asa. A energia se rompeu. Ele caiu através de sete espelhos. Em cada um, viu um momento de sua vida em que partira antes de alguém pedir que ficasse. No último espelho, a mulher voltou a aparecer.
— Se eu pedir para você ficar, vai ficar?
Zephirion estendeu a mão.
— Quem é você?
— Alguém que o vento ainda não trouxe.
O espelho tornou-se uma parede. Zephirion bateu contra ela. A dor atravessou o corpo.
— Não posso salvar uma pessoa que não existe.
— Você não precisa salvá-la.
Precisa aprender a não desaparecer quando ela chegar. O senhor dos ventos ficou imóvel. O céu ao redor parou. Não havia movimento. Nem mesmo seu cabelo de energia se mexia. O silêncio era tão vasto que Zephirion ouviu seu próprio coração. Ele percebeu que passara a vida correndo para que ninguém pudesse abandoná-lo primeiro. Fechou os olhos.
— Eu fico.
A palavra não foi um comando. Foi uma escolha. O ar voltou como uma explosão. Zephirion abriu as asas, não para fugir, mas para abraçar a tempestade. Os reflexos colidiram com ele e foram absorvidos pelo vento. A mulher do espelho desapareceu por último.
— Quando a luz falhar — sussurrou ela —, você vai precisar de mim.
Zephirion tentou responder, mas já estava de volta à floresta. Ele caiu sobre uma árvore, que se curvou para ampará-lo.
— Obrigado — disse.
A árvore soltou uma folha azul. Zephirion segurou-a contra o peito. A folha trazia um símbolo que ele nunca tinha visto, duas correntes de vento entrelaçadas. Varnak apareceu abaixo.
— O que você encontrou?
— Uma promessa.
— De quem?
Zephirion olhou para o céu fechado.
— Ainda não sei.
Glaciron, Abyssal e Luminor aproximaram-se. Aurelion e Emberion ainda não tinham voltado, e Thaurion permanecia com Varnak. Do interior da floresta veio um rugido profundo. Aurelion tinha encontrado seu caminho. E, sob as raízes, Thaurion encarava um futuro que não queria ver.