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Topázio — O Despertar dos Cristais

Capítulo 18 — O guardião e a criança que ainda não nasceu

Thaurion caminhou por uma cidade que não existia. As ruas eram feitas de cristal claro. Torres cresciam como árvores. Pessoas sem rosto cruzavam as praças, carregando pequenas pedras douradas. Em todos os muros havia o símbolo dos sete Guardiões, mas os símbolos pareciam antigos demais para pertencer ao presente. No centro da cidade, uma criança desenhava no chão. Thaurion aproximou-se.

— O que está desenhando?

A criança não respondeu. Desenhou um círculo, depois uma linha de luz e uma linha de trovão. No fim, fez uma ponte entre as duas. O minotauro sentiu a cicatriz arder.

— Quem é você?

A criança ergueu os olhos. A luz da cidade se refletia neles, apagando a cor. Quanto mais Thaurion tentava enxergar o rosto, menos conseguia retê-lo.

— Ainda não tenho nome.

— Todos têm um.

— Alguns nomes chegam depois da escolha.

Thaurion olhou ao redor. A cidade começou a ruir. As pessoas sem rosto viraram sombras. O céu se abriu, revelando a fenda branca da antiga planície.

— Eu não posso salvar você — disse ele.

— Não pedi para ser salvo.

— O Vazio vai procurar você.

— Então ensine os outros a lembrar.

A criança tocou a ponte desenhada.

— Outros vão precisar atravessar. Você não pode escolher todos os passos por eles.

Thaurion recuou.

— Não quero ser memória.

— Ninguém quer. É por isso que ela é necessária.

A cidade desmoronou. Thaurion tentou alcançar a criança, mas o chão se abriu. Uma mão escura surgiu sob os cristais. A voz de Kael’Thar atravessou o céu.

— Você outra vez, sempre tentando salvar o que ainda não existe.

Thaurion golpeou a mão com o cajado. Selos dourados se cravaram na sombra.

— Eu não vou deixar que você toque essa vida.

— Você já deixou que eu tocasse a sua.

O minotauro foi jogado contra uma torre. A criança não fugiu. Apenas continuou desenhando. Thaurion levantou-se, sangrando luz.

— O futuro não pertence a você.

— O futuro pertence a quem o teme.

A sombra abriu a palma. Sete fragmentos de cristal apareceram, cada um contendo o rosto de um Guardião. Thaurion entendeu. Kael’Thar não precisava destruir o futuro. Bastava convencer cada um de que sua dor era um destino. O minotauro cravou o cajado no chão.

— Eles não são meus para proteger.

— Não?

— São deles para escolher.

Ele abriu as mãos. Em vez de prender os sete rostos, soltou-os. Os fragmentos voaram pela cidade e encontraram os Guardiões em seus julgamentos. A criança sorriu.

— Agora você aprendeu.

Thaurion acordou na clareira com lágrimas no rosto. Varnak o observava.

— Você viu o que vem.

— Vi uma possibilidade.

— E por que está chorando?

Thaurion olhou para o cajado.

— Porque, pela primeira vez, talvez eu não precise controlar tudo para que algo sobreviva.

Na trilha ao norte, Aurelion permanecia diante de uma porta fechada. Fora ali que Mirakel o deixara. A parede trazia marcas de fuligem. Do outro lado vinha o som de passos que ele reconhecia mesmo depois de tanto tempo.

— Só precisa abrir — disse a voz do irmão.

Aurelion segurou a maçaneta. Estava quente.

— O que existe aí?

— Você não perguntou da primeira vez.

O cavaleiro soltou o metal. Atrás dele, a passagem por onde viera se estreitava. Não havia uma saída confortável. A floresta lhe oferecia a velha cena e esperava que fizesse alguma coisa diferente com ela. Ele encostou o ouvido na madeira. Sob os passos, ouviu um segundo ruído: alguém tentando respirar. Uma criança? Um animal? A voz do irmão insistiu que estava sozinho. Aurelion se ajoelhou. Pela fresta inferior, uma poeira cinzenta entrava e saía em pequenos sopros. Lembrou-se do que fizera na noite verdadeira. Recebera uma ordem para manter a passagem fechada.

Dissera ao irmão que esperasse. Confiara que existiria tempo para voltar com outros homens. Nunca voltara à mesma porta. Mirakel não podia devolver aquela noite. Aurelion percebeu isso quando viu que a maçaneta já não tinha forma; seus dedos haviam fechado sobre um nó de madeira viva. A floresta podia, contudo, fazê-lo esperar ali até que confundisse vigilância com reparação. Ele retirou a espada e começou a alargar a fresta. Não golpeou a parede. Usou a ponta para encontrar o encaixe, tirou as cunhas uma a uma e sustentou a madeira com o ombro.

Cada lasca retirada arranhava sua cicatriz. A porta cedeu. Não havia um irmão atrás dela. Havia uma pequena raiz sufocada sob a pedra, tentando alcançar a luz. Aurelion ergueu a pedra até a raiz se libertar. Quando a soltou, a passagem antiga se desfez. A floresta abriu uma trilha comum, sem voz alguma. Ele levou alguns instantes para guardar a espada. Ao sair entre as árvores, Aurelion encontrou os outros na clareira. Trazia a armadura marcada, lascas de madeira presas à luva e uma expressão que nenhum dos outros conhecia.

— Você também viu alguém — disse Thaurion.

Aurelion não perguntou como ele sabia.

— Vi meu irmão.

Zephirion, Luminor, Glaciron e Abyssal aproximaram-se. Aurelion falou sem olhar para eles:

— Ouvi meu irmão atrás de uma porta.

Mirakel me mostrou o que fiz quando ele pediu ajuda.

— Você o conhecia? — perguntou Luminor.

— Conhecia.

— E o que você fez?

Aurelion tocou a cicatriz no peito.

— Naquela noite, esperei por uma ordem.

Achei que poderia voltar depois. Glaciron fincou a lança no chão.

— Algumas portas fecham.

— Eu sei.

Aurelion ergueu o rosto para as árvores.

— Mas o que aconteceu antes da porta ainda não terminou. Se ele aparecer diante de nós, não vou fingir que é um monstro sem história.

Thaurion ficou em silêncio. O futuro da criança ainda brilhava em sua mente. Varnak abriu as raízes da clareira.

— Vocês viram a si mesmos.

Agora verão a floresta. Do centro de Mirakel surgiu uma luz verde tão intensa que todos os cristais do continente responderam. O Cristal da Vida estava acordado.