Capítulo 4 — O círculo dos ausentes
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O abismo fechou-se antes de engolir o altar, mas não antes de deixar uma cicatriz no chão. Era uma marca circular, atravessada por oito linhas. Sete brilhavam com cores diferentes. A oitava parecia beber a luz das outras. Thaurion desenhou um selo sobre ela.
— Não vai durar — disse Luminor.
— Nada dura quando é feito às pressas.
— Então nos diga o que está acontecendo.
O minotauro olhou para os seis companheiros. Havia poeira no rosto de Aurelion, gelo derretendo sobre Glaciron, água evaporando dos ombros de Abyssal e cinzas presas às penas de Emberion. Zephirion limpava uma ferida no queixo com a manga. Luminor segurava uma lâmina rachada. Pareciam menos lendas e mais sobreviventes.
— O equilíbrio de Topázio não é uma parede — disse Thaurion.
— É uma conversa.
Os sete Cristais Elementares mantêm o mundo em acordo: luz, terra, mar, fogo, ar, vida e sombra. Quando um elemento se impõe, os outros respondem. Quando a conversa é interrompida, a realidade começa a desafinar.
— E a sombra daquele mosaico? — perguntou Glaciron.
Thaurion colocou a mão entre a lâmpada e o chão. A sombra de seus dedos acompanhou o movimento.
— Esta faz parte do mundo.
O repouso, a noite, o intervalo entre duas luzes. O Vazio faz outra coisa. Afastou a mão. Uma das manchas do chão permaneceu onde estava.
— Retira a relação entre as coisas.
Um rosto perde o nome, uma casa perde a porta. Depois, aquilo que ficou separado começa a desaparecer. Aurelion apontou a última linha do círculo.
— E a oitava?
— É a marca dessa ruptura.
Abyssal apertou o tridente.
— Vazio.
Thaurion não negou. O nome se espalhou pelo círculo como uma corrente fria. Emberion abriu as asas.
— Se o Vazio existe, por que ninguém fala dele?
— Porque os registros foram ocultados. Eu ajudei a ocultá-los.
Zephirion apontou para a cicatriz.
— Essa porta já está aberta.
Antes que Thaurion respondesse, um tremor atravessou o templo. Do alto das torres, gritos começaram a subir. Criaturas maiores escalavam as paredes externas. Aurelion girou para os outros.
— Quantas?
— O suficiente — disse Luminor.
— Isso não é número.
— É o que temos.
Aurelion quase sorriu. Quase. Eles se dividiram. O cavaleiro levou Luminor e Glaciron para o portão leste. Zephirion e Emberion subiram às torres. Abyssal ficou com Thaurion na Câmara Central. As novas criaturas eram maiores que as primeiras. Cada uma trazia uma placa de cristal escuro no peito; nela, rostos mudavam a cada segundo. Uma criatura atacou Glaciron usando a forma de um velho homem de barba branca. O guerreiro congelou.
— Mestre...
Aurelion aparou o golpe antes que alcançasse sua garganta.
— Não olhe para o rosto.
O velho sorriu com dentes de sombra.
— Ele ainda falha como antes.
Glaciron fechou os olhos. O golpe seguinte acertou seu ombro, arrancando uma placa de gelo. A dor o trouxe de volta. Ele agarrou a criatura pelo pescoço e a prensou contra o portão.
— Meu mestre morreu com o próprio rosto — disse.
— Você não tem o direito de usá-lo.
O gelo cobriu o espectro até que só restasse uma estátua quebrada. Nas torres, Zephirion voava entre garras negras. Emberion transformava o ar em círculos de fogo que separavam as criaturas. Quando uma delas abriu asas de sombra e o empurrou contra uma coluna, Zephirion segurou-se com uma mão.
— Estou bem!
— Você está preso a uma coluna — gritou Emberion.
— Ainda é uma forma de voo!
Emberion riu sem querer. O riso durou pouco. Um espectro rompeu a barreira de fogo e avançou sobre os dois. Zephirion soltou a coluna. Emberion lançou-se para baixo, pegou-o no ar e o arremessou contra o telhado. A criatura veio atrás. Zephirion virou o corpo e criou um funil de vento. Emberion encheu o funil de chamas. O espectro virou uma estrela negra que caiu além das muralhas. Na Câmara Central, Abyssal ouviu o mar chamá-lo. Não o mar de Topázio. Um oceano mais antigo, fundo demais para receber luz.
— Venha para casa — sussurrou a água no chão.
Ele deu um passo. Thaurion segurou seu braço.
— Não escute sozinho.
— Eu conheço esta voz.
— É por isso mesmo.
O chão se abriu sob Abyssal. Tentáculos de água negra agarraram seu tornozelo. Ele golpeou com o tridente, mas cada ataque dividia a corrente em outras duas. Thaurion lançou três selos.
— Diga seu nome.
— Abyssal.
— Mais alto.
— Abyssal!
O mar negro hesitou.
— Diga para quem pertence.
Abyssal encarou a abertura.
— A mim.
Ele puxou a perna. A água explodiu para trás, e a Câmara ficou inundada de luz azul. Quando os demais retornaram, encontrou-se uma roda de corpos e estilhaços no pátio. Thaurion mandou fechar os portões, mas Aurelion não permitiu que os soldados expulsassem os refugiados.
— O templo é deles também.
— E se houver um traidor entre eles? — perguntou Luminor.
— Então vamos encontrá-lo. Não condenaremos todos por causa de uma sombra.
Luminor encarou o cavaleiro por um instante longo.
— Você fala como se já tivesse perdido um povo inteiro.
Aurelion virou o rosto.
— Falo como alguém que não quer perder outro.
Thaurion ouviu a frase e reconheceu o vazio por trás dela. Havia um nome escondido naquela resposta. Um nome que Aurelion não entregaria ainda. À noite, os sete reuniram-se ao redor do círculo de oito linhas. O Cristal Primordial projetou um mapa no ar. O continente apareceu em linhas de luz. Montanhas, rios, florestas e desertos se acenderam. Três pontos pulsaram com intensidade: O Vulcão de Osai. A Floresta de Mirakel. O Templo de Pyralis. Thaurion fechou a mão.
— Precisamos chegar aos cristais antes da corrupção.
— E depois? — perguntou Zephirion.
— Depois encontraremos a origem.
No alto da torre mais distante, uma figura observava o templo. Usava uma máscara de cristal negro e segurava uma foice longa demais para qualquer braço. Ela sorriu ao ver os sete reunidos.
— Corram para a tempestade — murmurou.
— É sempre mais fácil quebrar quem acredita que está salvando o mundo.