Capítulo 10 — A estrada que sangra
Usa a voz nativa do navegador; não substitui o audiobook oficial.
Desceram Osai em silêncio. A montanha ficava para trás, mas o som do vulcão continuava dentro de cada um. Aurelion caminhava devagar. A mancha em seu peito não se espalhava, porém também não desaparecia. Thaurion insistia que aquilo era uma cicatriz de contato, não uma corrupção completa. Aurelion não perguntou qual era a diferença. No primeiro acampamento, Emberion acendeu uma fogueira pequena. O fogo oscilou com o vento, lançando luz sobre as armaduras danificadas. Zephirion estava sentado longe dos demais, olhando para as próprias mãos.
— Quase matei todos — disse.
— Não matou — respondeu Luminor.
— Isso não transforma a queda em voo.
Luminor sentou-se ao lado dele.
— Quando meu templo caiu, eu passei três dias contando os corpos.
Zephirion virou o rosto.
— Eu não sabia.
— Você não perguntou.
— Eu pergunto muita coisa.
— Pergunta sobre qualquer coisa que não possa feri-lo.
O vento soprou entre os dois. Zephirion apertou os dedos.
— E você?
O que faz quando algo pode feri-lo? Luminor olhou para a lâmina rachada.
— Treino até não sentir.
— Funciona?
— Por alguns minutos.
Do outro lado do fogo, Glaciron observava Aurelion. O cavaleiro retirara a armadura do peito. A cicatriz negra parecia um galho queimado atravessando o cristal dourado.
— Não toque — disse Aurelion.
Glaciron parou.
— Eu não iria.
— Todos olham como se pudesse quebrar.
— Pode?
Aurelion passou a mão sobre a marca.
— Todo mundo pode.
Glaciron ficou em silêncio. Depois sentou-se perto dele.
— Meu mestre dizia que o gelo não é ausência de calor. É calor que aprendeu a esperar.
— Seu mestre parece ter sido sábio.
— Era.
Também era cruel.
— A maioria dos sábios é.
— Você é sábio?
Aurelion pensou.
— Não o suficiente para responder.
Pela manhã, encontraram uma aldeia sem portas. As casas estavam intactas, mas todas as entradas haviam desaparecido. Pessoas tateavam as paredes, incapazes de entrar ou sair. Um homem gritava o nome da esposa, embora ela estivesse diante dele e não o reconhecesse. Sombras Fraturadas moviam-se dentro das casas, sugando lembranças. Os Guardiões dividiram-se. Luminor cortou as paredes sem atingir os moradores. Abyssal encheu os quartos de água até as sombras perderem forma. Glaciron congelou as janelas e criou passagens sólidas. Zephirion localizou os espectros pelo som, mesmo quando não havia corpo.
Emberion queimou o veneno sem tocar a madeira. Aurelion entrou na última casa. Uma menina estava sentada no chão, segurando uma boneca sem rosto.
— Você se lembra do seu nome? — perguntou ele.
Ela negou. A sombra atrás dela ergueu-se e tomou a forma de um homem jovem. Tinha o mesmo porte de Aurelion, mas usava uma armadura de relâmpagos.
— Você sempre chega tarde — disse a figura.
Aurelion levantou a espada.
— Você não é ele.
— Mas sabe quem é.
A sombra avançou. O cavaleiro bloqueou o golpe, mas a casa inteira tremeu. O falso guerreiro tinha a força de uma memória que nunca aceitara morrer.
— Você prometeu que me levantaria.
Aurelion foi lançado contra a parede.
— Eu não prometi isso.
— Prometeu.
O golpe seguinte partiu o chão. Aurelion caiu sobre um joelho. A menina olhava para ele, assustada. O cavaleiro largou a espada. A sombra hesitou.
— Se quer me matar, faça-o sem usar uma criança como escudo.
Ele estendeu a mão para a menina.
— Venha.
A sombra atacou. Aurelion agarrou a criança e virou o corpo. O golpe atravessou suas costas de cristal. A dor fez o cavaleiro gritar, mas ele não soltou a menina. Do lado de fora, Luminor ouviu o som.
— Aurelion!
Ele entrou, cortou a sombra ao meio e iluminou a sala. A forma do guerreiro de relâmpagos se desfez em fumaça. A menina tocou o braço de Aurelion.
— Você se lembra dele?
O cavaleiro fechou os olhos.
— Lembro o bastante.
A aldeia recuperou suas portas antes de recuperar todos os nomes. Alguns moradores se abraçavam; outros precisaram perguntar com quem tinham dividido a casa. Na praça, uma mulher trouxe pão e água. Aurelion recusou até que a menina colocasse metade de seu pão na mão dele.
— Heróis precisam comer — disse ela.
— Não somos heróis.
— Então precisam mais ainda.
Aurelion guardou a metade do pão, mas permaneceu na praça. A mulher que servia a água apontou a casa de onde ele retirara a menina.
— Era da família de minha irmã.
O nome dela voltou. O do marido, ainda não. Um homem se sentara junto à porta, com as mãos apoiadas nos joelhos. Observava a menina como um visitante que não soubesse quanto tempo podia ficar. Thaurion aproximou-se, abriu a caixa da Tempestade e deixou a metade azul iluminar uma fotografia de cristal quebrada. O homem ergueu a cabeça. Seus lábios se moveram, procurando uma sílaba. O esforço durou até o minotauro precisar apoiar-se em Aurelion. A sílaba não veio.
— Amanhã vocês tentam de novo — disse o homem.
Aurelion não respondeu de imediato.
— Vamos mandar ajuda de Gaia. Você pode nos dizer o que ainda lembra?
O homem indicou uma prateleira vazia.
— Ela fica brava quando ponho o pão ali.
Os pássaros entram. A menina se aproximou e segurou um dedo da mão dele. Ficaram assim enquanto Luminor anotava o endereço em um pedaço de tecido. Na estrada, Thaurion perguntou:
— Quem era o guerreiro?
Aurelion demorou a responder.
— Alguém que eu perdi.
— O mesmo alguém da memória de Osai?
— Sim.
— Seu irmão?
Aurelion parou. O grupo inteiro ouviu o silêncio.
— Não importa para onde vamos — disse ele finalmente.
— O passado não precisa de um nome para continuar perseguindo.
Thaurion abaixou o olhar. A cicatriz em sua palma brilhou. Naquela noite, longe da aldeia, uma sombra abriu a mão sobre uma lasca azul do cristal. Kael’Thar observou a imagem dos sete.
— Ainda não — disse ele.
— Deixe que se amem primeiro.