Capítulo 14 — O silêncio de Glaciron
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Glaciron despertou em um campo branco. O frio ali não era como o das Montanhas de Vordros. Não mordia. Não ameaçava. Era um frio absoluto, sem vento e sem passagem, como se o mundo tivesse sido coberto por uma única palavra: espera. Ele caminhou por horas sem encontrar nada. Depois ouviu o som de uma picareta. Seu mestre estava diante de uma muralha de gelo, golpeando uma porta fechada. Arcthar tinha o corpo menor que o de Glaciron e uma barba feita de cristais finos. Fora ele quem ensinara o jovem guardião a controlar o frio.
— Você veio tarde — disse Arcthar.
Glaciron parou.
— Você morreu.
— Essa é uma resposta, não uma explicação.
O campo tremeu. A muralha abriu-se, revelando uma vila congelada. Casas, árvores e pessoas estavam presos em um único instante. No centro, Arcthar erguia uma barreira de gelo ao redor de crianças. Glaciron lembrava daquela noite. Uma criatura da montanha havia descido para atacar a vila. Ele era jovem, assustado, e liberara frio demais. A criatura morrera. As crianças sobreviveram dentro da barreira. Arcthar não. O mestre olhou para o discípulo.
— Você congelou meus braços quando tentou me salvar.
— Eu não sabia controlar.
— E depois decidiu nunca mais sentir.
As pessoas da vila começaram a andar. Seus rostos eram de gelo, mas as vozes eram vivas.
— Você falhou.
— Você não foi forte.
— Você nos protegeu tarde demais.
Glaciron ergueu a lança.
— Eu sei.
As figuras se aproximaram.
— Então por que continua usando nosso rosto?
Glaciron baixou a arma.
— Porque tenho medo de esquecer.
Arcthar fincou a picareta no chão.
— Você não congela as coisas para preservá-las.
Congela para não precisar se despedir. O campo inteiro se partiu. A vila transformou-se em um exército. Pessoas de gelo correram contra Glaciron. Ele bloqueou o primeiro golpe, derrubou o segundo, mas cada inimigo que quebrava se refazia atrás dele. Não podia vencê-los com força. Glaciron largou a lança. Uma mulher de gelo atravessou seu peito. O frio invadiu o núcleo. Ele caiu sobre o joelho.
— Você me matou — disse Arcthar atrás dele.
— Não.
— Diga.
Glaciron levantou o rosto.
— Eu prendi seus braços.
Foi meu golpe. Não vou fingir que não aconteceu. O mestre ficou imóvel. Glaciron olhou para os rostos ao redor. Atrás deles, na vila que a memória reconstruíra, havia uma porta entreaberta. Uma criança respirava através de uma fenda no gelo. Ele se lembrava dela. Sobrevivera naquela noite porque Arcthar deixara um canal de ar junto à parede. O guerreiro retirou a mão do próprio peito e aproximou-a da porta. Precisava abrir a passagem sem derrubar o teto. Devagar, mudou a direção do frio, desviando-o para o solo. A dor nos braços exigia pressa.
Ele continuou.
— Se eu parar aqui, vocês continuam sendo apenas o pior dia da minha vida.
A porta se moveu. Glaciron amparou a criança antes de voltar a olhar para Arcthar.
— Eu sinto sua falta. Ainda não sei fazer tudo que você me ensinou.
O mestre retirou a picareta da neve e a encostou no ombro do discípulo. O campo começou a descongelar pela trilha que Glaciron abrira. As pessoas de gelo se desfizeram em neve. Arcthar aproximou-se e tocou a testa de Glaciron.
— Então pare de viver como se sentir fosse uma ameaça.
O mestre desapareceu. Glaciron ficou sozinho sob uma chuva de flocos brilhantes. No chão, a lança de gelo reapareceu. Na ponta ardia um reflexo azul, semelhante a uma chama, mas frio ao toque: a lembrança de Arcthar retida no cristal. Quando a floresta o devolveu à clareira, Glaciron caiu de joelhos. O corpo inteiro tremia, embora não estivesse frio. Varnak observou-o.
— O que deixou para trás?
Glaciron olhou para a chama na lança.
— A certeza de que lembrar é o mesmo que ficar preso.
Varnak abriu passagem para o próximo caminho.
— Agora você pode carregar a memória sem ser carregado por ela.
Ao longe, um tridente golpeou a água. O julgamento de Abyssal começara.