Capítulo 39 — A torre viva
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A Torre Obsidiana não caiu como uma construção. Gritou. Suas paredes se contorceram. Janelas fecharam como olhos. As correntes que a prendiam ao mundo começaram a partir-se, e cada ruptura abriu um buraco por onde montanhas, rios e pedaços de céu eram sugados. Os Guardiões correram pelo salão. Aurelion puxou Thaurion para longe do núcleo. Luminor e Glaciron seguraram a passagem. Zephirion e Abyssal tentavam manter as plataformas alinhadas. Emberion voava entre os cristais, libertando memórias que ainda estavam presas. Uma das correntes da torre caiu em direção ao vale.
Glaciron ergueu as duas mãos. Uma muralha de gelo atravessou o vazio e segurou o peso.
— Não vou conseguir por muito tempo.
Luminor ficou ao lado dele.
— Então teremos que ser rápidos.
O gelo começou a rachar. No nível inferior, uma sombra atravessou a ponte. Nirvok. Estava quase sem armadura. A foice havia desaparecido, e suas mãos sangravam luz escura. Ele subia carregando uma pequena lanterna. Thaurion reconheceu o objeto.
— Você voltou.
Nirvok ergueu a lanterna.
— A porta fechou. Mas alguma coisa ficou do lado de fora.
— O que é?
— Um nome.
A torre lançou uma onda de sombras contra ele. Nirvok abriu a lanterna. Dentro havia uma chama mínima, dourada. A onda se curvou ao redor.
— A lembrança de quem eu era.
Kael’Thar apareceu no alto do núcleo, ainda em forma de titã.
— Você não passa de um eco.
— Todos nós somos.
Nirvok lançou a lanterna. A chama entrou no peito de Kael’Thar. O titã congelou. Por dentro da armadura surgiu a lembrança que Kael’Thar havia arrancado de Nirvok: um menino segurando uma luz. O titã precisou interromper o ataque para contê-la. Kael’Thar olhou para a pequena figura.
— Eu mandei que esquecesse.
O menino protegeu a luz com as mãos.
— Eu esperei.
Um dos braços do titã cedeu, pendendo ao lado do corpo. Nirvok foi atingido por um estilhaço e caiu. Aurelion correu até ele.
— Você conseguiu.
— Não diga isso ainda.
Nirvok olhou para Thaurion.
— Se a torre cair, a cidade de memórias cai com ela.
— Eu sei.
— Então faça o que veio fazer.
Thaurion olhou para o núcleo. Não podia salvar as memórias todas. Eram antigas demais, numerosas demais. Se tentasse carregá-las, a realidade se romperia. Aurelion compreendeu o dilema.
— Você está pensando em selar tudo.
— Se eu não selar, os fragmentos vão atravessar o continente.
— E se selar?
— O que a torre guardou permanecerá no escuro.
Emberion pousou ao lado deles.
— Nem tudo que fica no escuro está perdido.
Thaurion encarou a fênix.
— Falar é fácil quando se voltou do fim.
— Eu não voltei sozinho.
Emberion olhou para os seis.
— E não vou partir sozinho.
Kael’Thar rugiu. O corpo começou a se desfazer, mas a coroa de oito pontas permaneceu inteira. O Vazio abriu uma boca no centro do núcleo.
— Se não posso ter o mundo, terei o esquecimento.
Aurelion levantou a espada.
— Vocês ouviram.
Os Guardiões prepararam-se. Glaciron soltou a corrente de gelo no último instante e a transformou em uma ponte. Luminor correu sobre ela. Zephirion e Abyssal combinaram vento e água para manter o núcleo aberto. Emberion cobriu Thaurion com as asas. Thaurion entregou a caixa dos cristais a Glaciron. O guerreiro a prendeu contra o peito com uma faixa de gelo, deixando a tampa livre.
— Leve os dois de volta para Gaia — pediu o minotauro.
Então caminhou para a boca do Vazio. Kael’Thar voltou a atacar. Aurelion bloqueou o braço que alcançava Thaurion. Luminor cortou a arma sem lâmina. Glaciron prendeu as pernas. Abyssal inundou o torso. Zephirion levou o rosto do titã para o céu. Emberion atingiu o peito com a chama azul. Dentro do titã, a lembrança de Nirvok soltou a lanterna. Kael’Thar caiu. Thaurion entrou no núcleo. O minotauro encontrou uma sala feita de luz dourada e sombra. No centro havia oito encaixes ao redor de um vestígio de coração. Sete recebiam os reflexos dos cristais do continente; o último não refletia nada.
Uma das partes se aproximou dele.
— Você veio terminar o que começou.
— Vim impedir que o começo se repita.
— Para isso, terá que ficar.
Thaurion olhou para o lado de fora. Os seis Guardiões estavam presos à ponte, lutando para manter o mundo inteiro. Ele tocou os oito encaixes.
— Eu não vou desaparecer.
— Todos que entram no núcleo desaparecem.
— Então vou permanecer em quem se lembra.
Thaurion abriu a própria cicatriz. A luz e a sombra atravessaram seu corpo. A torre parou de gritar. Por um instante, tudo ficou em silêncio. Então as correntes se partiram.