Capítulo 24 — A última chama
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O Templo de Pyralis ficou em silêncio. O fogo dos canais havia se apagado. A areia cessara de cair. Até o coração subterrâneo do vulcão parecia esperar uma resposta. Aurelion segurava a cinza dourada como se fosse um pássaro ferido.
— Ele não morreu — disse Zephirion.
Sua voz falhava.
— Você não sabe disso.
— O vento ainda sente calor.
Luminor aproximou-se do altar rachado.
— Não há corpo.
— Fênix não deixam corpos.
— Isso não significa que voltem.
Aurelion levantou o rosto.
— Chega.
Foi a primeira vez que os demais ouviram raiva na voz dele. Thaurion recolheu a cinza em um pequeno frasco de cristal. Sua mão tremia.
— A essência dele se dispersou pela rede.
Parte ficou na chama.
— E o resto? — perguntou Glaciron.
Thaurion voltou a luz do frasco contra a parede. Havia cinza demais para um ponto de brilho tão pequeno.
— Ainda não consigo encontrar.
— Você nunca sabe quando precisamos saber — disse Luminor.
Thaurion aceitou o golpe sem responder. Do altar surgiu uma pequena criatura. Era uma fênix de cristal, não maior que um gato. Suas penas eram transparentes, cheias de faíscas douradas. Ela caminhou até Aurelion e pousou em seu ombro. O cavaleiro fechou os olhos.
— Emberion?
A fênix inclinou a cabeça. Uma chama pequena nasceu em seu bico. Zephirion aproximou-se, tocando de leve uma pena.
— É ele.
Luminor observava o pequeno ser.
— Ou é o que o templo deixou para que não ficássemos sozinhos.
Aurelion protegeu a criatura com uma mão.
— Ainda importa. Mas não vou deixar este pedaço dele aqui.
Thaurion aproximou o frasco. A pequena fênix acompanhou o brilho, e uma linha dourada ligou as cinzas ao seu peito.
— É um vínculo — disse o minotauro.
— Não é Emberion inteiro.
Zephirion retirou a mão da asa transparente. A criatura procurou seus dedos de novo.
— Então cuidamos do que temos.
A pequena fênix soltou uma nota aguda. As paredes responderam com ecos de fogo. A Última Chama havia purificado Pyralis, mas não podia ser levada. Permaneceria no templo, uma fonte para queimar as manchas mais profundas do Vazio. O Cristal da Vida, por outro lado, continuava com os Guardiões. Thaurion abriu o mapa. Os pontos do Vulcão de Osai, Mirakel e Pyralis brilhavam. A linha central, que antes apontava para uma região desconhecida, agora se estendia em direção ao norte. Para o Vale do Esquecimento.
— Não vamos atrás de outro cristal? — perguntou Abyssal.
— Vamos atrás do que está roubando os cristais.
A sombra de Kael’Thar apareceu sobre o mapa.
— Finalmente.
Nirvok surgiu no alto das ruínas, de pé sobre uma coluna quebrada. A foice estava danificada, mas ainda respirava ausência.
— Meu mestre está cansado de esperar.
Aurelion colocou a fênix no braço.
— Então diga a ele que espere mais.
Nirvok riu.
— Vocês perderam o fogo e ainda falam como vencedores.
A fênix de cristal abriu as asas. Uma pequena explosão dourada atingiu Nirvok, que foi derrubado da coluna. Ele rolou, abriu uma fenda e desapareceu antes que os outros pudessem alcançá-lo. No lugar onde estivera, ficou uma frase queimada na pedra: Quando a chama se acende, o que dorme sob a cinza acorda. Zephirion leu em voz alta.
— Isso é uma ameaça?
— É uma profecia — respondeu Thaurion.
— Toda profecia é uma ameaça com boa caligrafia.
Aurelion olhou para o norte.
— Vamos.
Antes de partirem, a pequena fênix voltou ao altar. A pequena fênix pousou na pedra. A chama do templo envolveu o corpo de cristal e falou dentro da mente de todos: O fogo não pertence a quem o carrega. Pertence ao que precisa continuar. Emberion não respondeu. Mas uma centelha azul apareceu no fundo de seus olhos cristalinos. Naquela noite, enquanto o grupo cruzava o deserto, a pequena fênix dormiu no ombro de Aurelion. O cavaleiro não se moveu para não acordá-la. Thaurion caminhava ao lado dele.
— Você disse que não sabia se ele voltaria.
— Ainda não sei.
— Mas acredita.
Aurelion tocou a cicatriz em seu peito.
— Eu já perdi alguém por acreditar que teria tempo depois. Não vou perder Emberion para a pressa de uma resposta.
As estrelas finalmente apareceram acima do deserto. E uma delas caiu na direção do oeste.