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Topázio — O Despertar dos Cristais

Epílogo — A flor no escuro

A primeira estrela reapareceu antes que eles deixassem as ruínas. Três noites depois, Aurelion conseguiu reconhecer uma constelação inteira. Ele estava sentado na traseira de uma carroça, com a espada partida entre os joelhos. Cada solavanco fazia o ombro latejar. À sua frente, Luminor mantinha a perna estendida sobre um saco de palha. Durante o dia, caminhara até o sangue atravessar a atadura. Agora aceitava a carroça, embora fingisse vigiar a estrada. Glaciron levava a caixa com os dois cristais. A metade corrompida da Tempestade perdera os veios mais escuros; a fratura continuava ali, mantida junto à outra metade por um fio azul.

O Cristal da Vida iluminava as frestas da tampa. Ainda precisariam descobrir quanto os santuários haviam resistido. Nenhuma das pedras indicava onde estava Thaurion. Tinham procurado durante dois dias. Emberion desceu às fendas até que o calor de suas asas se tornasse insuficiente. Abyssal introduziu água nos espaços que ninguém alcançava e ouviu o que ela trazia de volta. Aurelion retirou pedras com as mãos. Encontraram partes da torre, armas vazias, objetos que pertenciam a pessoas distantes. Não encontraram o cajado. Também não encontraram Nirvok. Luminor guardou o pedaço de tecido negro preso a uma rocha.

A ajuda que o servo lhes dera na última batalha não apagava os mortos de Mirakel nem a cidade sem sombras. Se tivesse sobrevivido, ainda teria de responder por eles. Ao fim da segunda tarde, Zephirion sentou-se entre os escombros.

— Se ficarmos mais uma noite, talvez...

Aurelion se sentara ao lado dele. Não dissera que a busca era inútil. Não sabia. Mas os ferimentos de Luminor precisavam de cuidado, e a caixa dos cristais começara a aquecer. Partiram ao amanhecer. Na carroça, Zephirion dormia inclinado para o lugar vazio junto à borda. A cada curva, estendia a mão para segurar alguém que já não estava ali. O Templo de Gaia apareceu depois de uma manhã de chuva. Faltava uma torre. Sobre o portão sul, duas traves novas sustentavam a pedra que Aurelion se lembrava de ver cair.

Havia roupas secando entre as colunas e uma fila de pessoas esperando por água. Mara trabalhava junto ao portão. Quando reconheceu o cavaleiro, deixou a corda que estava amarrando e correu até a carroça. Não perguntou se haviam vencido. Olhou para os feridos, para a caixa, para o último trecho vazio da estrada.

— Quantos voltaram?

Aurelion demorou a responder.

— Seis.

Ela baixou os olhos por um instante. Depois chamou dois homens e pediu que levassem Luminor à enfermaria. Lia apareceu com uma tigela nas mãos. Parou ao ver a asa escura de Emberion. A fênix manteve-a dobrada, afastada das roupas no varal.

— Dói? — perguntou a menina.

— Às vezes.

Lia pensou nisso. Estendeu a tigela para a mão dourada.

— Então segura deste lado.

Era caldo de raízes. Não havia quase nada dentro, mas estava quente. Emberion aceitou sem falar. Naquela tarde, seis lugares foram preparados numa sala ao lado da Câmara Central. Aurelion contou os cobertores antes de perceber que estava procurando o sétimo. A reconstrução avançou em tarefas pequenas. Abyssal limpou a cisterna e mostrou aos moradores quais canais ainda podiam ser usados. Glaciron aprendeu a fechar os dedos novos antes de tentar carregar blocos de pedra; um deles quebrava sempre que apertava demais. Zephirion transportou telhas durante dois dias, até Mara lhe tirar uma pilha das mãos e apontar para a comida.

Emberion passou uma manhã inteira mantendo um forno aceso. Quando a chama violeta cresceu, avisou. As pessoas se afastaram, ele deixou o calor baixar, e depois continuaram. Ninguém precisou fugir. Luminor afiava a lâmina antiga sentado à porta da enfermaria. A nova, mais curta, ficava ao alcance de sua mão. Quando alguém lhe agradecia por ter salvado o mundo, ele perguntava de qual aldeia a pessoa vinha. Foi assim que soube do homem que reaprendera o nome da filha. Não se lembrava ainda do dia em que ela nascera. Mas todas as manhãs lhe cortava o pão da maneira certa.

Ela passara a levar uma cadeira para junto dele. Luminor tirou do bolso a tira de tecido onde anotara o endereço dos dois. Conservou-a. No quinto dia, os cristais foram acomodados no círculo reparado da Câmara Central. Uma corrente azul percorreu o piso; outra, verde, alcançou os mosaicos nas paredes. As luzes mais distantes responderam em intensidades diferentes. Mirakel precisava de ajuda. De Pyralis vinha um pulso fraco, mas regular. Aurelion esperou uma terceira luz surgir. Ela não veio. Em vez de encerrar a reunião, abriu espaço ao redor da mesa para os mensageiros que aguardavam no corredor.

Precisavam saber quais estradas continuavam interrompidas e onde faltavam alimentos. Thaurion teria começado pelas pessoas que ninguém tinha ouvido. Aurelion pediu que a primeira entrasse. Na véspera da cerimônia em memória do minotauro, Zephirion encontrou uma tigela limpa ao lado das panelas. Levou-a até a mesa. Distribuiu as outras seis e ficou com a última nas mãos. Glaciron o observava da porta.

— Posso guardar — disse.

Zephirion passou o polegar pela borda.

— Amanhã.

O guerreiro de gelo assentiu. Puxou uma cadeira e sentou-se com ele. Por algum tempo, só ouviram o barulho das obras no pátio. Alguém deixou cair um martelo. Um trabalhador reclamou, outro riu. Zephirion ergueu os olhos para a janela, esperando ouvir uma repreensão calma sobre ferramentas e dedos distraídos. Quando ela não veio, apoiou a tigela na mesa. Glaciron permaneceu ali. Aurelion subiu sozinho à Câmara Central depois que os corredores esvaziaram. A pequena flor recolhida nas cinzas da torre estava num recipiente de pedra, perto da janela. Uma de suas pétalas havia se aberto durante a viagem.

As demais continuavam cerradas, atravessadas por linhas douradas. Ele encostou um dedo no recipiente. Não ouviu voz alguma. Não viu um rosto dentro do cristal. Quis pedir orientação. Quis reclamar da escolha que Thaurion fizera. Pensou nas palavras que ainda poderia ter dito enquanto o minotauro caminhava ao seu lado, vivo, irritante, carregando segredos e fingindo que o ferimento não doía. Aurelion sentou-se no chão. Ficou até que o frio atravessasse a armadura. Do corredor, Emberion chamou seu nome. Havia uma refeição esperando e, pela primeira vez desde a torre, os outros cinco estavam à mesa.

O cavaleiro se levantou devagar.

— Já vou.

Antes de sair, ajeitou o recipiente para que a flor recebesse a luz da janela. Na última pétala fechada, um ponto dourado se acendeu. Tão breve que poderia ter sido o reflexo de uma estrela. Aurelion deixou a porta entreaberta.

Fim...