← Índice11 / 42
Topázio — O Despertar dos Cristais

Capítulo 11 — O eco que não morre

O caminho para Mirakel levava ao leste, por uma região onde as árvores cresciam em círculos e os rios desapareciam sob a terra. Depois de Osai, o céu parecia limpo, mas ninguém confiava mais no azul. O Cristal da Tempestade viajava dentro de uma caixa feita por Glaciron. Nas duas cavidades da caixa, as metades azul e marcada pulsavam toda vez que Aurelion passava perto. Thaurion estudava o mapa em silêncio.

— Você escondeu o nome dele por séculos — disse Luminor.

— Não escondi.

Protegi o mundo de uma lembrança.

— Lembranças não atacam.

— As que vivem dentro de cristais, atacam.

Emberion caminhava ao lado do minotauro.

— Kael’Thar quer que o temamos?

— Ele quer que o compreendamos.

— Isso é pior.

Thaurion olhou para a estrada.

— Monstros simples são derrotados com espadas.

Pessoas quebradas exigem que você escolha até onde vai estender a mão. Naquela tarde, encontraram uma ponte coberta de folhas negras. Nenhuma árvore ao redor tinha folhas daquele tom. Abyssal tocou uma delas. A folha se desfez em água escura.

— A corrupção já chegou à floresta.

Zephirion subiu no ar, mas voltou quase imediatamente.

— Há algo observando atrás das árvores.

Glaciron ergueu a lança.

— Quantos?

— Um.

— Isso é melhor.

— Não.

Ele está observando há três dias. As árvores permaneceram imóveis. À noite, fizeram acampamento sob uma saliência de pedra. Ninguém dormiu profundamente. Os sonhos vieram como febre. Glaciron sonhou com um campo congelado. Seu mestre estava de costas, caminhando para uma tempestade branca. Glaciron tentou alcançá-lo, mas cada passo congelava os pés de alguém atrás dele. Abyssal sonhou com o fundo do mar. O clã inteiro o observava do outro lado de uma parede de vidro. Sua marca brilhava como uma doença. Luminor sonhou com duas lâminas. Uma estava em sua mão.

A outra, cravada no altar de uma ordem em chamas. Emberion sonhou com um vulcão vazio. A lava tinha se tornado cinza, e uma voz chamava por ele do centro. Aurelion não sonhou. Ficou sentado diante do fogo, segurando a caixa do cristal corrompido. Em algum momento, a tampa se abriu sozinha. O relâmpago negro formou um rosto.

— Você ainda se lembra da promessa?

Aurelion cobriu a pedra.

— Eu me lembro do fracasso.

— É a mesma coisa vista do outro lado.

— Você não é meu irmão.

— Não usei o nome dele.

Aurelion ficou de pé.

— Nunca mais use.

O rosto riu sem som. Thaurion despertou.

— Aurelion, afaste-se.

— Você sabia que ele conhecia minha memória.

— Eu sabia que ele conheceria a de todos.

— E ainda nos trouxe até aqui.

O minotauro sustentou o olhar.

— Porque o mundo está doente.

— Talvez ele esteja certo. Talvez não devêssemos restaurar os cristais.

— E deixar o Vazio escolher por nós?

Aurelion apertou a caixa.

— Eu deixei alguém cair uma vez. Não vou deixar um continente inteiro cair para evitar olhar a razão.

O rosto na pedra desapareceu. Ao amanhecer, a floresta abriu uma passagem. As árvores se afastaram, revelando um caminho de musgo que não existia no mapa. Em suas raízes, pequenos pontos dourados pulsavam como olhos. Thaurion aproximou-se e sentiu uma presença enorme.

— Mirakel sabe que estamos chegando.

— Ela nos quer lá? — perguntou Zephirion.

— Ela quer descobrir se vocês merecem entrar.

O primeiro passo na trilha fez o chão respirar. As folhas viraram-se para os sete. E, no fundo da floresta, alguma coisa pronunciou cada nome na ordem certa. Quando chegou a Thaurion, a voz parou. Como se ainda não soubesse se devia chamá-lo de guardião ou de culpado.