← Índice32 / 42
Topázio — O Despertar dos Cristais

Capítulo 32 — Os corredores de gelo e luz

Glaciron caminhou pela vila congelada. As pessoas estavam presas em posições de medo. Uma mulher segurava uma criança. Um homem erguia uma porta. Arcthar estava no centro da rua, com os braços abertos.

— Você pode salvar todos — disse o mestre.

Glaciron ergueu a lança.

— Não posso.

— Desta vez, pode.

A chama azul na ponta da arma cresceu. O gelo começou a derreter. Mas o calor liberou sombras sob as casas. Cada pessoa descongelada se transformava em uma criatura de cristal escuro. Glaciron atacou. O primeiro monstro tinha o rosto de Arcthar. O segundo, o de uma criança. O terceiro, o seu próprio. Ele derrubou todos, mas a vila se encheu de inimigos. Arcthar aproximou-se.

— Você sempre escolhe uma vida e deixa outra.

— Escolher não é o mesmo que abandonar.

— É exatamente o que quem fica diz.

Glaciron fechou os olhos. Em vez de congelar as sombras, bateu a lança no chão. O gelo se abriu em raízes cristalinas, prendendo os monstros sem destruí-los.

— Eu não posso devolver o que perdi.

As sombras pararam.

— Mas posso impedir que a perda se multiplique.

A chama azul saiu da lança e percorreu a vila. Os rostos falsos desapareceram. Arcthar ficou sozinho, com a expressão cansada que Glaciron conhecia.

— O frio pode esperar — disse ele.

Arcthar desapareceu. O reflexo azul da lança se recolheu a uma pequena pedra quente, que ficou na mão de Glaciron. No salão de Luminor, a cadeira vazia continuava esperando. O comandante da antiga ordem colocou uma coroa sobre o assento.

— Sente-se.

Luminor olhou para as lâminas.

— Para quê?

— Para liderar os que não morreram.

— Vocês estão mortos.

— Mortos não deixam aplausos.

As fileiras douradas bateram as espadas no chão. O som era perfeito. Luminor avançou, fascinado pela ordem. A cadeira parecia oferecer tudo que perdera: respeito, certeza, um lugar onde a luz nunca falharia. O comandante estendeu a mão.

— Uma ordem não precisa de dúvidas.

Luminor colocou a lâmina rachada sobre o assento. A fissura cedeu; a parte superior se desfez no tecido dourado da cadeira.

— Então não precisa de mim.

A luz do salão escureceu. As figuras da antiga ordem avançaram. Luminor lutou com uma só lâmina. Cada golpe que desferia apagava um rosto. Cada rosto apagado deixava uma dor em seu peito. Ele não podia vencer sem destruir as memórias. Em vez de atacar o comandante, Luminor guardou a espada.

— Eu não vou transformar vocês em inimigos para me sentir perdoado.

O comandante parou.

— E como vai viver com a culpa?

— Com os vivos.

O salão se desfez em luz. A cadeira vazia virou uma ponte estreita. No centro dela, a luz dos fragmentos se reunia ao redor da empunhadura. Luminor a recolheu. A arma refeita era mais curta, com uma linha opaca onde a rachadura estivera. Na outra mão, a lâmina antiga continuava inteira. Do lado de fora do labirinto, sua marca acendeu. Thaurion ouviu a voz dele:

— A perfeição é outra forma de abandono.

Glaciron respondeu:

— O frio pode esperar.

Os corredores se aproximaram. Glaciron e Luminor encontraram-se em uma sala onde neve e luz caíam ao mesmo tempo. Uma criatura feita de gelo e ouro guardava a saída.

— Um de vocês precisa ficar — disse ela.

Luminor ergueu a lâmina.

— Por quê?

— Toda passagem exige um preço.

Glaciron olhou para a pedra quente na mão.

— Não precisa ser uma pessoa.

Ele colocou a pedra no chão. O calor se espalhou, derretendo a neve e expondo a borda do selo de luz. Luminor tocou a lâmina na rachadura. Enquanto ele a mantinha aberta, Glaciron recuperou a pedra com a ponta da lança. Guardou-a junto ao núcleo do peito antes de atravessar. A sala abriu-se. Do outro lado, Zephirion gritava contra um céu sem vento.