Capítulo 29 — Ash'kar
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Emberion lembrava do fogo. Não lembrava do mundo antes dele. Na memória, Pyralis era uma planície de cinzas. O altar ficava no centro, partido ao meio. Os Guardiões estavam de costas, afastando-se. Aurelion levava o Cristal da Vida. Thaurion fechava um portal. Zephirion voava para longe. Luminor carregava uma lâmina. Glaciron e Abyssal desapareciam na tempestade. Emberion corria atrás deles.
— Esperem.
Seu corpo ardia. A voz não saía. Uma mão negra agarrou seu ombro.
— Eles escolheram o mundo — disse Kael’Thar.
Emberion virou-se.
— Eles vão voltar.
— Você acredita nisso?
— Ele prometeu que não deixaria ninguém.
— Promessas são palavras ditas por quem teme ficar sozinho.
A memória se repetiu. Emberion corria. Os outros partiam. Kael’Thar segurava seu ombro. Repetiu-se uma terceira vez. Na quarta, Emberion não tentou correr. Ficou diante do altar. O fogo dourado em seu peito se abriu. A sombra entrou. Quando o grupo atravessou a memória, encontrou Emberion ajoelhado diante de uma montanha de cinzas. Aurelion avançou.
— Emberion.
Ash'kar ergueu o rosto.
— O nome é uma coleira.
— Então eu vou quebrá-la.
Aurelion aproximou-se, mas o chão explodiu. Fogo negro subiu em colunas. Luminor puxou as lâminas. Glaciron congelou uma das colunas. Abyssal abriu água sob os pés. Zephirion criou um corredor de vento. Ash'kar voou. O combate foi mais rápido que qualquer luta anterior. Ele não atacava como Emberion. A fênix conhecia os hábitos dos companheiros e transformava cada lembrança em vantagem. Zephirion tentou prendê-lo com correntes de ar. Ash'kar queimou a corrente antes de ela se fechar.
— Você sempre voa para longe quando alguém precisa que fique.
Zephirion perdeu o equilíbrio. Luminor atacou de baixo. Ash'kar aparou a lâmina e lançou uma rajada que partiu a proteção do guerreiro.
— Você continua usando duas armas para compensar uma dúvida.
Glaciron golpeou com a lança. Ash'kar desviou e acertou seu peito.
— Você congela tudo porque tem medo de perder.
Abyssal ergueu uma maré. Ash'kar atravessou a água e tocou a marca na mão do tritão.
— Você não pertence a lugar nenhum.
Abyssal rugiu e o lançou contra a montanha de cinzas. Aurelion foi o último a atacar. Ash'kar esperava.
— Você vai me dizer que ainda sou seu irmão? perguntou.
Aurelion parou.
— Você não é meu irmão.
O fogo negro hesitou.
— Finalmente.
— Você é meu companheiro. E eu não abandono companheiros.
Ash'kar avançou com força total. As duas figuras colidiram. O impacto abriu uma cratera na memória. Aurelion perdeu a espada. Ash'kar segurou sua garganta com uma garra em chamas.
— Você não me abandonou?
Onde estava quando eu desapareci?
— Tentando voltar.
— Mentira.
— Tentando manter os outros vivos depois que o altar desabou.
Ash'kar apertou a garra.
— Você sempre escolhe o mundo.
— Sim.
A fênix recuou, como se a honestidade fosse um golpe.
— E agora escolhe o quê?
Aurelion colocou a mão sobre a garra negra.
— Escolho ficar enquanto você decide se quer voltar.
Ash'kar gritou. Uma tempestade de fogo negro caiu sobre todos. Thaurion abriu o cajado.
— Não lutem contra as palavras.
Lutem contra a lembrança que as alimenta. O minotauro entrou na memória. Viu o altar de Pyralis. Viu Emberion se fundindo à Última Chama. Viu a pequena fênix nascendo. Viu a cinza dourada pousando nas mãos de Aurelion. Thaurion procurou uma lembrança que Ash'kar não podia negar. Encontrou a primeira noite no acampamento, quando Emberion dividira seu fogo com Zephirion sem que ninguém pedisse. Encontrou a ponte de Osai, quando a fênix empurrara Aurelion para a margem segura. Encontrou a floresta, quando Emberion queimara a corrupção do braço de Varnak.
Thaurion puxou as lembranças para o centro.
— Você não era amado porque era forte.
Ash'kar cobriu os ouvidos.
— Cale-se.
— Você era amado porque ficava.
As memórias douradas atravessaram o fogo negro. Ash'kar caiu de joelhos. Por baixo da máscara, os olhos voltaram a ter o brilho de Emberion.
— Eu tentei ficar.
— Nós sabemos.
— Ninguém veio.
Aurelion aproximou-se.
— Viemos agora.
Uma lágrima de luz escorreu pelo rosto da fênix. Kael’Thar apareceu no céu da memória.
— Então prove que o vínculo é mais forte que a perda.
Ele fechou a mão. Ash'kar foi atravessado por correntes negras que subiram do chão. Seu corpo se partiu entre fogo dourado e púrpura. Emberion gritou. Os Guardiões seguraram suas mãos, mas a memória os expulsou. Antes de desaparecer, Thaurion viu um fragmento dourado preso no peito de Ash'kar. O verdadeiro Emberion ainda estava ali. Mas agora estava trancado dentro do próprio fogo.