Capítulo 37 — O reino sombrio
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Os Guardiões alcançaram o segundo nível pela escada revelada acima do arco. A reunião durou apenas o tempo de ajustarem as ataduras. Aurelion trazia uma ferida no ombro. Luminor mancava, com uma lâmina curta e outra lascada. O braço recomposto de Glaciron estava coberto de rachaduras. Zephirion ainda tinha o tecido dos nós preso ao pulso. Abyssal procurava umidade nas paredes. A atadura de Thaurion voltara a manchar. Emberion mantinha as asas recolhidas. Kael’Thar abriu as portas do reino sombrio. O salão seguinte era uma cidade suspensa. Ruas de obsidiana cortavam o ar.
Casas flutuavam de cabeça para baixo. Pessoas feitas de sombra caminhavam sem rosto.
— A torre guarda tudo que o mundo decidiu esquecer disse Thaurion.
— E Kael’Thar alimenta-se disso — respondeu Luminor.
Uma figura caiu do teto. Nirvok. A máscara estava quebrada. A foice, quase sem lâmina. Seu corpo tinha menos sombra do que antes.
— Vocês ainda estão vivos.
Aurelion empunhou a espada.
— Por pouco.
— Kael’Thar vai matar todos antes de chegar ao topo.
— Então não fique no caminho.
Glaciron não baixou a lança.
— Mirakel perdeu um braço por sua causa.
Há pessoas lá dentro que talvez nunca saiam. Nirvok olhou para a arma apontada ao peito.
— Eu sei onde o veneno entrou.
— Isso não devolve nada.
— Não.
O servo apoiou-se na foice. Não tentou aproximar-se mais.
— Eu tentei sair.
Zephirion aproximou-se.
— E?
— A porta só abre para quem lembra por que entrou.
Abyssal olhou para ele.
— Você lembra?
Nirvok encarou as sombras da cidade.
— Eu queria que alguém respondesse.
Thaurion estendeu a mão.
— Responderam.
— Não do jeito que eu esperava.
Um ruído percorreu as ruas. Criaturas de cristal negro surgiram das casas. Algumas eram grandes como lobos. Outras tinham armaduras de antigos guardiões. Nirvok ergueu a foice.
— Corram para o topo.
Aurelion não se moveu.
— E você?
— Vou fechar a porta.
— Não sozinho.
Nirvok riu.
— Vocês têm um problema com deixar pessoas para trás.
— Aprendemos isso na ponte.
O combate começou. Nirvok girou a foice, apagando sombras sem rosto. Luminor abriu caminho entre armaduras. Glaciron congelou as ruas suspensas. Abyssal transformou os telhados em canais de água. Zephirion levou os inimigos para longe. Emberion queimou os corpos sem destruir as casas. Kael’Thar observava de uma torre distante.
— Ainda tentando salvar o que já foi esquecido.
Uma das criaturas atacou Thaurion por trás. Aurelion bloqueou.
— Não olhe para trás.
— Você não é o único que pode proteger.
— Então proteja o caminho.
Thaurion fincou o cajado. A cidade inteira respondeu. As ruas se reorganizaram, formando uma espiral até o alto. Nirvok olhou para a passagem.
— Essa torre não vai deixar todos subirem.
— Eu sei — respondeu Thaurion.
— Então alguém precisa permanecer para segurar o reino.
Uma porta negra se abriu no centro da cidade. Atrás dela, uma onda de sombras crescia. Nirvok caminhou até a entrada. Aurelion segurou seu braço.
— Você pode vir conosco.
— Para quê?
— Para descobrir quem é quando não está servindo ao Vazio.
Nirvok olhou para a própria mão.
— Talvez eu já tenha descoberto. E não gosto da resposta.
Ele soltou o braço.
— Vão.
Os Guardiões subiram a espiral. Nirvok permaneceu na porta. As sombras vieram. O servo fincou a foice no chão e puxou a corrente de ausência sobre a entrada. A primeira criatura o atingiu. Depois outra. Ele continuou segurando. No alto, Zephirion ouviu o som da porta fechando.
— Ele ficou.
Thaurion não olhou para trás.
— Ele escolheu.
O reino sombrio se partiu em uma tempestade de fragmentos. No topo da espiral, Kael’Thar esperava diante de um salão aberto para o vazio. Dezenas de cristais menores flutuavam ao redor. Cada um continha uma memória roubada de Topázio. No centro havia uma torre dentro da torre: um núcleo negro, pulsando como um coração. Kael’Thar estendeu os braços.
— Vejam o que vocês chamam de inimigo. Eu não destruo as memórias.
Eu as preservo. Emberion encarou os cristais.
— Preservar não é prender.
— O que acontece quando os vivos esquecem?
O mundo perde seus mortos. Eu ofereço eternidade. Luminor apontou a lâmina.
— Você oferece uma prisão onde ninguém pode mudar.
— A mudança é a primeira forma de perda.
Aurelion caminhou até o centro.
— E o controle é a primeira forma de abandono.
Kael’Thar sorriu.
— Você aprendeu a falar como Thaurion.
O minotauro deu um passo.
— E você continua usando meu nome como uma ferida.
Kael’Thar abriu a mão. A Torre Obsidiana acordou. As paredes se fecharam. Os cristais menores dispararam raios de memória. O chão se abriu sob os Guardiões. No núcleo, uma coroa de oito pontas começou a girar. Kael’Thar ergueu-se, deixando a armadura crescer sobre o corpo.
— Se a luz não pode ser destruída, será absorvida.
Os sete Guardiões formaram uma linha. Emberion abriu as asas de ouro e violeta.
— Então venha descobrir quanto fogo existe em uma escolha.
O titã nasceu do corpo de Kael’Thar.