Capítulo 15 — O mar que não cabia em um corpo
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Abyssal caiu em um oceano sem superfície. Não havia céu, nem fundo. Apenas água em todas as direções, escura como pedra polida. Seu tridente desapareceu. Sua marca brilhou na mão, mas nenhum movimento da maré respondeu. Ele nadou. Encontrou seu clã diante de um portão de coral. Os anciãos estavam alinhados em silêncio. Ao centro, seu pai segurava um cetro de concha.
— Você voltou — disse o pai.
— Fui chamado.
— Ninguém é chamado para abandonar o próprio sangue.
O portão se abriu. Dentro, Abyssal viu a infância que poderia ter tido: treinando com outros jovens, participando das cerimônias, recebendo um nome que não carregasse a palavra abismo. Seu reflexo apareceu entre eles. O outro Abyssal usava uma coroa de coral.
— Eu fiquei — disse o reflexo.
— Eu aprendi a obedecer.
Todos me respeitam. Abyssal tocou a água.
— E é feliz?
— Felicidade é uma palavra da superfície.
O reflexo sorriu.
— Você foi embora porque era fraco.
A água ao redor ficou mais pesada. Vozes subiram de todos os lados.
— Anormal.
— Sangue marcado.
— Erro da corrente.
Abyssal tentou nadar até o portão, mas seu corpo estava preso em correntes invisíveis. O pai ergueu o cetro.
— Diga a que lugar você pertence.
— Ao mar.
— Qual mar?
— A todos.
— Resposta de quem não tem casa.
O oceano se fechou em torno de sua cabeça. Abyssal sentiu as guelras arderem. Sua marca escura brilhava como uma ferida. No desespero, tentou puxar a corrente, mas ela o levou para uma fenda. Do outro lado, havia um navio submerso. Dentro dele, um menino tritão batia nas paredes. Era Abyssal muito jovem, preso durante uma tempestade. Ninguém do clã o ouvira. A corrente o carregara para longe, e, quando voltou, os anciãos disseram que ele havia atraído o desastre. O menino olhou para ele.
— Você veio me buscar?
Abyssal encostou a testa no vidro.
— Vim.
— Vai me levar para casa?
Ele olhou para o portão, para o pai, para o reflexo coroado.
— Não sei onde é a casa.
O menino começou a chorar. Abyssal fechou os olhos. Pela primeira vez, não tentou negar a dor, não tentou provar que era forte, não tentou escolher um lado.
— Você não é um erro — disse ao menino.
— Você é uma corrente que encontrou outro caminho.
O navio rachou. A água explodiu para todos os lados. Abyssal puxou o menino para si. O pequeno corpo virou luz e entrou em seu peito. As correntes invisíveis se partiram. O clã desapareceu. O reflexo sem coroa abriu a boca, mas nenhuma voz saiu. Abyssal nadou em direção ao alto, embora não houvesse alto. Quando voltou à floresta, uma tempestade de água girava ao redor de seu corpo. Glaciron esperava perto das raízes.
— Você está ferido.
— Estou vivo.
— Não é a mesma coisa.
Abyssal sorriu de leve.
— Está aprendendo a fazer perguntas melhores.
Varnak aproximou-se.
— O que deixou no fundo?
Abyssal abriu a mão. O redemoinho que trazia desde o início agora tinha um segundo círculo, mais escuro e mais profundo.
— A necessidade de ser aceito por quem me expulsou.
As raízes se afastaram. Do próximo caminho veio o som de duas lâminas se chocando. Luminor estava lutando contra a própria luz.