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Topázio — O Despertar dos Cristais

Capítulo 3 — Sete caminhos para Gaia

Aurelion chegou ao portão sul do Templo de Gaia antes da família da vila, mas não entrou. Esperou até que a mulher da vila alcançasse a colina com duas crianças pela mão. O incêndio da noite anterior havia tomado três casas. Ela se chamava Mara; a menina, Lia. O menino dormia de pé, pendurado no braço da mãe. Aurelion ofereceu-se para carregá-lo. Mara demorou a aceitar.

— O que existe lá dentro? — perguntou.

— Uma reunião.

— De quem?

Aurelion olhou para o cristal suspenso entre as torres.

— De quem ainda puder lutar.

Ele abriu os portões e deixou a pequena família entrar antes de si. Só então percebeu que havia uma linha azul subindo por sua manopla. A marca do chamado avançava sob o metal como uma veia de luz. No alto, Zephirion atravessou a primeira torre pela janela quebrada e colidiu com uma estátua.

— Gaia continua elegante — falou, abraçado ao pescoço de pedra.

— Só precisa trabalhar a recepção.

Luminor estava no parapeito oposto, as lâminas cruzadas diante do peito.

— Você sempre chega assim?

— Apenas quando quero causar uma boa primeira impressão.

— Então falhou.

Zephirion sorriu, mas o sorriso morreu quando viu as torres rachadas. Glaciron entrou pelo caminho norte. A geada cobriu as pedras a cada passo. Uma criança se aproximou dele, fascinada, e estendeu a mão para tocar seu braço. Glaciron recuou antes que ela encostasse. A mãe puxou a menina para trás. O guerreiro de gelo abaixou a cabeça. Não sabia se lamentava ter assustado a criança ou se agradecia por ainda conseguir fazê-lo. Abyssal chegou por um canal subterrâneo, quebrando o piso da entrada em uma coluna de água. Caiu sobre os joelhos, apoiado no tridente, enquanto soldados do templo apontavam lanças para ele.

— Se pretendem me prender — disse —, escolham uma cela com janela para o mar.

— Ninguém vai prender ninguém — respondeu Thaurion do alto da escadaria.

Emberion pousou no pátio, e todas as tochas se acenderam ao mesmo tempo. Ao recolher as asas, a fênix estreitou o corpo de fogo até assumir a forma de um guerreiro alado. As penas se acomodaram sobre braços e ombros como placas de armadura. A chama sob a clavícula permaneceu exposta. Luminor levou a mão à espada. Aurelion deu um passo para a frente.

— Você é a fênix?

— E você é o homem que faz perguntas óbvias?

Zephirion soltou uma risada.

— Gostei dele.

Por último, a luz desceu sobre o templo. Luminor já estava ali, mas o feixe que atravessou o céu não o trouxe. Trouxe o sinal que ele deixara no Templo Celeste: um reflexo de vigilância, agora devolvido pelo cristal. A imagem pairou diante das portas e se dissolveu em seu peito. Luminor levou a mão ao coração.

— O templo rompeu o vínculo comigo.

— Nada nesta manhã foi normal — disse Thaurion.

Os sete estavam reunidos, mas ainda não eram um grupo. Eram sete direções apontando para o mesmo desastre. Thaurion conduziu-os à Câmara Central. No caminho, as paredes exibiam mosaicos antigos: um rio de fogo, uma montanha, uma floresta, uma estrela, um oceano, um olho de luz e uma sombra sem forma. Glaciron parou diante da sombra.

— Esse cristal não aparece nas histórias.

— Porque as histórias foram escritas por quem sobreviveu

— respondeu Thaurion.

Aurelion encarou o minotauro.

— O que você sabe?

— O suficiente para saber que não sei tudo.

— Isso não é resposta.

— É a única que não vai matar vocês hoje.

Antes que Aurelion pudesse insistir, o Cristal Primordial rachou. Uma descarga negra atravessou o teto. O templo inteiro gemeu. Pedras se soltaram das colunas. A mulher e as crianças gritaram no pátio. Aurelion correu para fora. Um bloco de cristal despencava sobre os refugiados. Ele ergueu a espada, mas o peso era grande demais. Glaciron cravou dois pilares de gelo sob o bloco. Um quebrou no impacto; o outro sustentou a pedra pelo tempo de uma respiração. Zephirion desviou o bloco com uma rajada. Emberion derreteu as pontas que ameaçavam quebrar.

Abyssal puxou as crianças pela água que escorria no chão. Luminor cortou os estilhaços menores. Thaurion ergueu um selo. Aurelion recebeu o impacto no escudo. O chão afundou sob seus joelhos. A correia do escudo rasgou a pele de seu antebraço, e ele precisou empurrar com o ombro para não tombar.

— Pela direita! — gritou para Mara.

A mulher arrastou as crianças pela abertura. Aurelion só largou o bloco quando viu as três atravessarem a arcada. O estrondo da pedra no chão encobriu seu gemido. Então os inimigos saíram da rachadura. Eram formas humanas feitas de fumaça escura e fragmentos de cristal. Não tinham rostos, apenas cavidades onde uma luz vermelha se movia. A primeira avançou contra Zephirion. Ele se esquivou. A criatura corrigiu o movimento no ar, como se conhecesse o medo que o guiava.

— Isso é novo — disse ele.

Emberion atravessou o espectro com uma asa em chamas. A coisa se dividiu em três.

— Isso também é novo!

A batalha espalhou-se pelo pátio. Aurelion segurava a linha diante das crianças. Glaciron levantava paredes de gelo para impedir que as sombras alcançassem o templo. Abyssal conduzia a água dos canais por entre as pedras soltas. Luminor procurava os fragmentos que mantinham as criaturas unidas. Thaurion viu a verdade antes dos outros: as criaturas não estavam tentando matar. Estavam tentando tocar os cristais dos Guardiões.

— Não deixem que encostem! — gritou.

Tarde demais. Uma sombra alcançou o peito de Luminor. O guerreiro viu uma porta dourada. Viu seus antigos companheiros chamando por ele. Por um instante, largou as lâminas. Aurelion atravessou o pátio e o puxou pelo ombro.

— Fique comigo.

Luminor piscou. A porta sumiu.

— Eu estava...

— Eu sei.

A coordenação veio aos tropeços. Duas vezes o vento de Zephirion desviou uma lâmina de Luminor. A água de Abyssal extinguiu a linha de fogo que Emberion usava para guardar o portão. Ao perceberem o erro, os dois mudaram de lado sem discutir. A última sombra caiu quando Glaciron lhe prendeu os pés e Luminor atingiu o fragmento escuro em seu peito. O resto se dispersou. Thaurion recolheu a lasca com a ponta do manto. Aurelion permaneceu diante da arcada até perceber que já não segurava o escudo. A mão tremia.

Do outro lado, Mara improvisava uma atadura com a bainha do vestido. Ele deixou que a amarrasse. O Cristal Primordial soltou um som profundo. Uma voz entrou no templo.

— Guardiões.

A palavra veio de todos os lados.

— Vocês acordaram aquilo que não podia ser tocado.

Aurelion ergueu a espada.

— Mostre-se.

— Eu já me mostrei.

Vocês apenas esqueceram como olhar. Uma linha negra rasgou o altar e abriu um abismo sob o cristal. Thaurion empalideceu.

— Para trás.

Todos. Do fundo da abertura, algo respirou de novo.