Capítulo 1 — A noite em que Topázio parou
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Topázio parou de respirar às duas badaladas da meia-noite. Os rios perderam o movimento. As folhas deixaram de tremer. Nas cozinhas das aldeias, as chamas se inclinaram para um lado e permaneceram imóveis. Uma mulher que levava água para o filho viu o líquido suspender-se acima da borda do copo. Durou uma batida de coração. Quando a água caiu, o menino começou a chorar. No Templo de Gaia, a primeira rachadura apareceu no teto da Câmara Central. O som foi pequeno: um estalo delicado, quase bonito. Depois veio outro. E outro.
A cada estalo, linhas de luz se espalhavam pelo Cristal Primordial suspenso acima do altar. Thaurion abriu os olhos dentro da Caverna do Eco Etéreo. Durante séculos, a caverna fora seu abrigo. Pilares de cristal flutuavam ao redor de sua mesa de pedra, cada um contendo uma memória de Topázio: o nascimento de uma nascente, a primeira ponte sobre o mar, a promessa dos antigos guardiões. Naquela noite, todos os pilares se viraram para a mesma direção. Para o sul. Para Gaia. O minotauro levantou-se. O pelo escuro de seu rosto estava coberto de pó azul, e os chifres traziam marcas que só apareciam quando o equilíbrio do continente se rompia.
Ele apoiou a mão no cajado e sentiu a madeira vibrar.
— Não agora — murmurou.
Uma voz respondeu dentro da pedra.
— Agora.
Thaurion não perguntou quem era. Conhecia aquele timbre. Era o mesmo sussurro que havia escutado junto da fenda, quando ainda acreditava que o passado podia ser trancado. Muito acima dele, nas Correntes Eternas, Zephirion despencou do céu. O senhor dos ventos estava acostumado a cair. Fazia disso uma forma de diversão. Naquela vez, porém, o ar simplesmente desapareceu sob seus pés. Suas asas de energia se fecharam, e ele caiu até quase tocar o telhado de uma torre abandonada. Um vento lateral surgiu no último momento e o jogou sobre uma varanda.
— Eu tinha planejado isso — disse ele, deitado de costas.
Então ouviu o chamado. Encontre os outros. A balança foi quebrada. Zephirion sentou-se. Pela primeira vez em muito tempo, não encontrou uma piada para responder. No extremo norte, Glaciron observava a neve cair sobre as Montanhas de Vordros. O guerreiro de gelo era alto e largo, formado de placas cristalinas que lembravam uma geleira erguida em forma humana. A neve sempre caía ao redor dele. Naquela noite, os flocos pararam a um palmo de suas mãos. Sob o silêncio, Glaciron ouviu o estalo de algo quebrando. Não era gelo. Era uma lembrança.
Ele fechou os dedos. Um círculo de geada se espalhou pela montanha e apagou as pegadas recentes de criaturas que vinham subindo. Depois, olhou para o sul. No fundo do Mar de Nym, Abyssal sentiu a corrente mudar de sabor. O tritão estava diante de um portão de coral antigo, onde as estátuas de seus antepassados guardavam a entrada de um reino submerso. A água começou a correr para cima. Cardumes inteiros foram arrastados na direção da superfície. Abyssal fincou o tridente no chão.
— Quem está puxando as marés?
O coral respondeu com uma palavra que ele não ouvia desde a infância: Vazio. No coração do Vulcão de Osai, Emberion abriu as asas. Ele não dormia como as outras criaturas. Durante décadas, sua chama se recolhera dentro de um casulo de cinza para preservar o fogo ancestral. Agora, as paredes do vulcão brilhavam com veios negros. A lava subia sem calor e desenhava no ar a forma de uma mão fechada. Emberion atravessou as chamas e encontrou uma pedra vermelha, rachada ao meio.
— Se estão chamando todos nós — disse a fênix —, então alguém já está com medo.
Em uma vila ao sul do templo, Aurelion limpava a espada. Era uma lâmina grande demais para qualquer homem comum. O metal cristalizado resistia aos golpes de armas ordinárias; cada movimento refletia o rosto de quem o empunhava. Ao redor, moradores fechavam portas e recolhiam crianças. Aurelion ajudava a apagar um incêndio que havia começado sem faísca. Quando a água caiu sobre as brasas, o fogo formou por um instante o desenho de um relâmpago partido. Aurelion ficou imóvel. Uma dor antiga abriu os olhos dentro dele. Depois guardou a espada nas costas, entregou o balde a uma mulher assustada e caminhou para a estrada.
— Levem os feridos para o celeiro de pedra — disse à mulher.
— A estrada para Gaia ainda está aberta. Vou esperar vocês no portão.
Ela olhou para a casa fumegante. Depois tomou o balde da mão dele e chamou os vizinhos. Só quando a última brasa do telhado cedeu, Aurelion recolheu a espada. No Templo Celeste de Luminor, um santuário flutuante preso por correntes de luz, o guerreiro treinava sozinho. Suas lâminas gêmeas deixavam rastros dourados no ar, e cada corte fazia um sino invisível tocar. Então uma das lâminas falhou. Por menos de um segundo, a luz apagou-se e Luminor viu o salão de sua antiga ordem em ruínas. Viu companheiros caídos. Viu a si mesmo chegando tarde.
Ele apertou os dentes.
— Não de novo.
O cristal no altar respondeu com um pulso. Sete pulsos atravessaram o continente. E, sob Gaia, o Cristal Primordial abriu uma fissura tão fina que parecia uma lágrima. Dentro dela, alguém respirou.