← Índice23 / 42
Topázio — O Despertar dos Cristais

Capítulo 23 — A guerra das brasas

A chama dourada não era maior que uma vela. Ainda assim, Ifirak recuou. O guardião caído tentou convocar o fogo do templo, mas os canais permaneceram apagados. Sua máscara rachada começou a vibrar.

— Você não pode apagar Pyralis.

— Não estou apagando.

Emberion abriu a mão. A pequena chama pairou acima da palma.

— Estou escolhendo o que ela alimenta.

Ifirak gritou e arrancou a espada presa no altar. O golpe fez as colunas se partirem. O teto de areia começou a desabar. Aurelion levantou o escudo quebrado.

— Todos para o círculo central!

O grupo correu enquanto pedras e brasas caíam. Glaciron criou pontes de gelo entre as plataformas. Abyssal encheu as rachaduras com água. Zephirion empurrou nuvens de areia para longe. Luminor protegeu Thaurion enquanto o minotauro terminava os selos. Ifirak perseguiu Emberion.

— Você é fraco sem o fogo.

— E você é vazio com ele.

Emberion desviou da espada. Ifirak acertou uma coluna, que explodiu. A fênix voou entre os estilhaços e lançou a pequena chama contra o chão. Uma linha dourada correu pelas pedras. Ifirak pisou sobre ela. A linha virou uma prisão de luz. Ele rompeu a primeira camada. Emberion criou uma segunda. Ifirak quebrou. Uma terceira linha nasceu, feita da água de Abyssal. Glaciron acrescentou gelo. Zephirion trouxe o vento. Luminor cravou a lâmina rachada no centro. Aurelion fincou sua espada ao lado. Os selos de Thaurion se fecharam sobre o círculo.

Ifirak ficou preso entre sete forças.

— Vocês acham que isso é equilíbrio? — rugiu ele.

— É medo dividido!

Emberion aproximou-se.

— Talvez. Mas o medo dividido não precisa governar ninguém.

Ifirak bateu as asas de carvão. A prisão tremeu. Uma rajada de calor derrubou Zephirion. Luminor foi arrastado até a borda do lago de fogo. Aurelion protegeu Thaurion com o corpo. Glaciron segurou a linha de gelo com a mão esquerda. Do braço direito, ainda incompleto, projetou um apoio curto até a pedra.

— Emberion, agora!

Emberion tocou o peito de Ifirak. Não lançou fogo. Mostrou sua própria memória. O vulcão vazio. A solidão. A raiva. O desejo de provar que uma chama abandonada ainda podia iluminar alguém. Ifirak viu tudo. Por um instante, a máscara caiu. Havia lágrimas de luz no rosto do guardião.

— Eu também queria que alguém ficasse — disse Ifirak.

— Então você devia ter ficado para os outros.

Ifirak fechou os olhos. A sombra dentro dele reagiu. Kael’Thar falou pela boca do guardião:

— Não confie na compaixão.

Ela é a corrente mais fácil de quebrar. Ifirak abriu os olhos, agora completamente vermelhos, e explodiu. A prisão se rompeu. Aurelion foi jogado contra o altar. Luminor caiu no lago, mas Abyssal o puxou com uma coluna de água. Glaciron perdeu o equilíbrio. Zephirion ficou preso no ar por uma corrente de calor. Emberion foi lançado contra o teto. Ifirak preparou o golpe final. Thaurion colocou-se diante dele.

— Você não pode vencer o fogo.

— Eu sou o fogo.

— Não. Você é alguém que tem medo de apagar.

Thaurion ergueu a mão marcada. A cicatriz brilhou com a mesma escuridão da máscara de Ifirak. O minotauro sentiu a voz do Vazio entrar em sua mente.

— Dê-me o que você guarda. Eu termino a batalha.

Thaurion quase aceitou. Quase. Então Emberion caiu entre ele e Ifirak.

— Não entregue sua dor a quem sabe apenas usá-la.

Emberion segurou a pequena chama diante do peito. O fogo dourado cresceu. Não se espalhou para fora. Entrou nele. A fênix começou a mudar. As penas se tornaram linhas de luz. O corpo ficou translúcido. Dentro do peito, uma chama antiga abriu-se como uma porta. Ifirak recuou.

— O que você está fazendo?

Emberion sentiu a chama tentar arrancar-se de seu peito. Conseguiu resistir por uma respiração. A resistência lançou uma nova fissura pelo altar.

— O fogo do templo está preso ao que ele roubou — disse a Thaurion.

— Se eu o arrancar, as raízes de Mirakel queimam junto.

O minotauro encostou o cajado na fissura. Do outro lado, a luz verde da floresta estremeceu. A rede transmitia a corrupção de um santuário para outro; agora transmitiria também a explosão. Aurelion procurou um apoio para o escudo, tentando manter Ifirak longe deles.

— Abrimos outra saída.

Emberion olhou para os canais selados por séculos de rocha.

— A saída está aqui.

Levou a mão ao próprio peito. Emberion olhou para os companheiros. Aurelion levantou-se com dificuldade.

— Emberion, não.

— Eu prometi que não deixaria o fogo ser apenas destruição.

Luminor tentou avançar, mas Abyssal o segurou. Emberion sorriu.

— Se eu voltar, tragam-me de volta. Se eu não voltar...

Zephirion balançou a cabeça.

— Não termine essa frase.

— Então escute a que importa.

Ele lançou a chama dourada contra o coração de Ifirak. O guardião caído gritou. O fogo atravessou a sombra, atingiu a armadura e abriu o altar ao meio. A Última Chama despertou. O templo inteiro foi tomado por uma luz branca, silenciosa, que consumiu a corrupção sem destruir a pedra. Ifirak tornou-se cinza. A máscara caiu no chão e se transformou em pó. Emberion desapareceu dentro da explosão. Quando a luz diminuiu, o altar estava vazio. No lugar da fênix havia apenas uma cinza dourada flutuando. Aurelion ajoelhou-se e estendeu as mãos.

A cinza pousou sobre suas luvas. Ele esperou que o calor aumentasse, que as penas se desenhassem outra vez, que alguma voz reclamasse da poeira. Nada aconteceu. Atrás dele, Glaciron tentou apoiar o braço perdido no chão. O gesto terminou no ar. Abyssal o amparou sem dizer palavra.