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Topázio — O Despertar dos Cristais

Capítulo 21 — O deserto que bebe nomes

O Deserto Escarlate não tinha noite. Durante o dia, o sol queimava a areia até fazê-la brilhar. Durante o que deveria ser a noite, a areia continuava quente e refletia uma luz vermelha vinda de baixo. As estrelas nunca apareciam. Thaurion guiava-se pelo mapa, mas as linhas mudavam a cada hora.

— Estamos andando em círculos — disse Luminor.

— Não.

— A duna diante de nós já estava atrás.

— O deserto se move.

— É uma desculpa diferente para a mesma coisa.

Emberion voou acima do grupo. O calor distorcia o ar, criando cidades e rios que não existiam. Em uma dessas miragens, ele viu o Vulcão de Osai coberto por cinzas. No topo, uma figura chamava por ele. Emberion pousou.

— Não vá sozinho — disse Aurelion.

— É uma ilusão.

— Mesmo assim, pode matar.

Emberion abriu as asas.

— Então venham comigo.

A miragem desabou quando os sete se aproximaram. No lugar da cidade, havia apenas um círculo de pedras e sete placas fincadas na areia. Cada placa trazia o nome de um Guardião. Zephirion tocou a sua. As letras sumiram.

— Ei.

Abyssal encostou na própria placa. Também desapareceu. Luminor puxou a espada.

— Não toquem!

Tarde demais. Aurelion viu seu nome apagar-se na pedra. O deserto começou a soprar. Não havia vento, mas vozes vinham de todos os lados.

— Zephirion.

— Abyssal.

— Luminor.

Os nomes eram repetidos até perderem significado. Glaciron apertou os punhos.

— A areia está roubando quem somos.

Thaurion cravou o cajado.

— Não respondam.

Uma voz imitou a de Aurelion.

— Eu sou o Cavaleiro de Cristal.

Outra imitou a de Emberion.

— Eu sou a chama.

As vozes riram. Zephirion levantou o rosto.

— Se não respondermos, como recuperamos os nomes?

— Lembrem uns aos outros — disse Thaurion.

Abyssal apontou para Zephirion.

— Senhor dos ventos.

O que entra em qualquer fresta e quase morreu em uma ponte. Zephirion olhou para ele.

— Tritão exilado.

O que finge não se importar quando alguém diz que ele tem uma casa. O deserto uivou. Luminor apontou para Glaciron.

— Você fez uma estrela para a menina de Gaia.

Esperou até que ela parasse de ter medo. Glaciron olhou para ele, surpreso.

— Você ficou consertando minha lança enquanto fingia afiar as suas.

Emberion pousou a mão no braço de Aurelion.

— Na ponte, eu disse que não precisava de ajuda. Você voltou mesmo assim.

Aurelion segurou o pulso quente.

— E você me puxou junto quando a margem cedeu.

As letras reapareciam aos poucos. Thaurion reconheceu a tarefa: os nomes haviam sido separados das lembranças, e cada testemunho devolvia um ponto de ligação. Palavras sozinhas não bastavam. Precisavam de algo que o outro também reconhecesse. Quando chegou sua vez, o minotauro preparou a confissão que vinha ensaiando. Zephirion o interrompeu.

— Você guardou sete tigelas na mochila.

Achei que sabia quantos de nós comem de verdade.

— Uma reunião precisa de lugares à mesa — respondeu Thaurion, antes de conseguir evitar.

Seu nome surgiu na pedra. A frase o alcançou com o peso de uma lembrança que ele não sabia ter deixado em outra pessoa. As placas reapareceram. As letras não traziam títulos nem juramentos; guardavam apenas os nomes que os companheiros haviam devolvido. O deserto parou. Embaixo da areia, algo bateu. O som vinha de muito longe. Depois ficou mais alto. A areia abriu-se e revelou uma escadaria descendo para a escuridão.

— Pyralis — disse Thaurion.

Desceram. O ar tornou-se frio. O deserto ficou acima deles, mas as paredes do túnel eram cobertas de chamas congeladas. Cada chama continha uma memória de fogo: uma casa aquecida, um campo queimado, uma estrela nascendo. Emberion tocou uma delas. Viu uma criança dentro de um vulcão, sozinha, feita de brasas recém-nascidas. Ao redor, vozes diziam que a chama deveria destruir para provar que era forte. Ele retirou a mão.

— Você está bem? — perguntou Aurelion.

— Eu não sei.

— Diga quando souber.

No fim da escadaria havia uma porta redonda. Não tinha fechadura, apenas uma frase: O fogo que só sabe vencer transforma tudo em cinza. Emberion aproximou-se.

— E o fogo que sabe perder?

A porta abriu-se. Do outro lado, o Templo de Pyralis esperava sob a areia, com suas torres vermelhas enterradas e um altar que queimava sem combustível. Uma voz profunda atravessou as ruínas.

— Filho da cinza.

Emberion ficou imóvel.

— Eu conheço essa voz.

As chamas do altar se ergueram.

— Então lembre-se do que veio pedir.

O chão explodiu. Algo com asas de carvão saiu de dentro do templo.