Capítulo 12 — A floresta que escolhe
Usa a voz nativa do navegador; não substitui o audiobook oficial.
Depois da primeira árvore, o caminho deixou de ser caminho. As raízes se moviam sob os pés dos Guardiões. Trilhas que apontavam para o norte terminavam diante de um rio. Rochas trocavam de lugar enquanto ninguém olhava. O céu desapareceu sob copas tão largas que pareciam continentes suspensos. Zephirion tentou subir para enxergar além das árvores. Um galho se dobrou e o acertou no peito.
— A floresta não gosta de voadores — disse ele, caindo sobre uma moita.
O galho apontou para baixo.
— Ou de gente que fala demais — acrescentou Luminor.
Zephirion se levantou coberto de folhas.
— Você está ficando engraçado.
— Estou tentando sobreviver.
A floresta ouviu a palavra. Todas as folhas se fecharam. Um grito veio do lado direito. Aurelion ergueu a espada e correu. Encontrou três crianças presas dentro de uma bolha de raízes. Ao redor delas, sombras escorrendo pelos troncos tentavam alcançar o interior. Emberion avançou, mas Thaurion segurou sua asa.
— Fogo aqui e você mata a floresta.
— Então diga o que fazer.
Thaurion colocou a mão no chão. Sentiu uma pulsação profunda, como o coração de um animal enorme.
— Peçam passagem.
Aurelion franziu a testa.
— Às raízes?
— A quem estiver escutando.
Aurelion baixou a espada.
— Mirakel, estas crianças não pertencem à corrupção.
As raízes apertaram. Uma menina chorou. Glaciron ajoelhou-se e encostou a palma no solo.
— Elas estão com medo. Nós também.
As sombras avançaram. Zephirion abriu os braços. O vento entrou por entre as folhas sem quebrar nenhum galho, arrastando o veneno para uma clareira. Abyssal puxou água das raízes e limpou os rostos das crianças. Luminor criou uma ponte de luz sobre a bolha. Emberion, com a chama reduzida a uma brasa, queimou apenas os fios negros que prendiam as raízes. Aurelion puxou a menina para fora. No instante em que a última criança saiu, a floresta fechou-se sobre as sombras. Troncos se torceram. O chão abriu bocas de madeira.
O veneno foi enterrado profundamente. As crianças correram até uma aldeã que surgiu entre as árvores. Ela se curvou diante dos Guardiões, mas Mirakel não esperou agradecimentos. O caminho mudou outra vez.
— Ela está nos testando — disse Thaurion.
— Já salvamos três crianças — falou Zephirion.
— Isso conta como aprovação?
— Foi apenas a porta. Mais adiante, o grupo entrou em uma região sem som.
As bocas se moviam, mas nenhuma palavra saía. As asas de Zephirion batiam sem ruído. O gelo de Glaciron se formava sem estalo. Até os pensamentos pareciam abafados. Abyssal apontou para o chão. Havia sete círculos desenhados no musgo. Cada um trazia o símbolo de um Guardião. Quando se posicionaram sobre eles, a floresta mostrou suas árvores por dentro. Veios de topázio corriam pelo tronco. Pequenas luzes se moviam entre as raízes como peixes. Então os círculos se fecharam. Aurelion tentou sair, mas uma parede de madeira ergueu-se à frente.
Luminor cortou a parede; o corte fechou no mesmo instante. Emberion soprou uma chama; o fogo virou flor. Uma voz profunda atravessou o silêncio.
— Nenhuma força entra em Mirakel sem deixar algo para trás.
O chão tremeu. De cada árvore surgiu uma figura gigantesca, feita de madeira viva e cristais verdes. A maior trazia um rosto marcado por séculos. Seus olhos eram duas luas douradas.
— Eu sou Varnak, memória das raízes — disse a figura.
Vocês buscam o Cristal da Vida. Thaurion inclinou a cabeça.
— Buscamos impedir que ele seja corrompido.
— E o que farão quando a corrupção encontrar suas próprias feridas?
Ninguém respondeu. Varnak ergueu um braço. O silêncio desapareceu com uma rajada de folhas.
— A floresta não lhes dará um cristal por serem fortes.
Dará a quem conseguir permanecer inteiro depois de olhar para dentro. As raízes sob os sete se abriram.
— Cada um caminhará sozinho.
Aurelion procurou os demais, mas uma parede de troncos já os separava. Antes de desaparecer, ele ouviu Zephirion gritar:
— Se alguém encontrar uma saída, deixe uma placa!
Mirakel fechou-se ao redor deles. E, pela primeira vez desde a reunião em Gaia, cada Guardião ficou sem ninguém para proteger.